Haitiano está preso há três dias no aeroporto de Viracopos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Agência Estado 
O haitiano Luckner Filosier, de 34 anos, está há três dias "preso" no aeroporto internacional de Viracopos, sem poder deixar do Brasil e voltar para casa. Sem ter avisado sua família, sem dinheiro e com apenas uma pequena mala de mão, uma bolsa e uma sacola, ele vagueia pelos terminais do aeroporto empurrando um carrinho com suas bagagens desde terça-feira, 27.
Sensibilizados com a situação do haitiano, funcionários terceirizados do aeroporto têm feito "vaquinhas" para que ele consiga ao menos almoçar - o dinheiro dá só para uma refeição por dia - e disponibilizado um banheiro para que ele possa tomar banho diariamente.
"Estou com fome porque não tenho mais dinheiro para comer. Comprei a passagem e não sobrou nada", afirma Luckner, que em três dias já conhece cada detalhe dos dois terminais de Viracopos em operação -o novo, que segue em obras mas já recebe os voos internacionais do aeroporto, e o antigo, que ainda concentra os voos nacionais. "Eu não durmo. Fico andando para lá e para cá, subindo e descendo, indo de ônibus de um terminal para o outro."
Luckner diz que chegou a Viracopos às 14h37 de terça, vindo de Chapecó (SC), e partiria às 2h45 de quarta- em um voo da Copa Airlines, para o Panamá -de lá, viajaria para o Haiti para rever a mulher Fani, a filha Luni e os pais após dois anos e meio.
Mas ele afirma ter sido proibido de embarcar por não ter uma carteira internacional de vacinação nem ter tomado vacina contra febre amarela. Sua passagem aérea foi remarcada para 11 de fevereiro, e agora ele corre contra o tempo para resolver o problema enquanto perambula pelo aeroporto.
"Só quero voltar para o meu país", diz o rapaz de rosto jovem e cavanhaque que fala e entende português. Bem vestido e com uma camiseta azul jeans por cima de uma camiseta preta, calça jeans e tênis e bonés pretos, nem parece que está há três dias "morando" em Viracopos.
A reportagem tentou contato com a Aeroportos Brasil Viracopos, concessionária que administra o aeroporto, com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e com a Copa Airlines para saber se a recusa do embarque do haitiano foi o procedimento correto, mas não conseguiu.
Instruído por funcionárias do aeroporto, Luckner foi até o posto de saúde do São José, na periferia de Campinas, e tomou a vacina na quarta. Mas ele diz que seu cartão de vacinação só ficará pronto na segunda, e a Anvisa recomenda aos viajantes que tomem a vacina no mínimo dez dias antes da sua viagem.
A perspectiva é que até 11 de fevereiro o haitiano continue dependendo da ajuda alheia. "Minha mulher está me esperando, ela sabe que eu estou voltando, mas não que estou aqui", diz o rapaz, que veio para o Brasil para trabalhar e se decepcionou.
Seu primeiro destino foi Manaus, onde tinha amigos -"lá se paga muito pouco"-, mas logo ele resolveu tentar a sorte no Sul, onde conseguiu um emprego como entregador de supermercado que só rendeu o suficiente para ele comprar a passagem de volta, por R$ 3,1 mil. "Aqui no Brasil a coisa está muito difícil."


