''Na busca pela dona Zilda Arns, coloquei fogo em dez corpos. Existe uma crença no Haiti que se você morre sem um pedaço do corpo, quando nascer novamente estará sem esse membro, a não ser que o corpo queime no fogo. Estava passando por uma rua, a noite, logo após o terremoto, quando uma criança puxou meu vestido e disse: 'me ajude! me ajude!'. Quando olhei tinha uma mulher morta no chão sem as duas pernas, mãe da criança. O garoto me pediu para ajudá-lo a colocar fogo no corpo da mãe, pois não queria que ela nascesse sem as duas pernas. Levantei o vestido da mulher, coberto de sangue, e comecei a fazer a fogueira, com a criança me ajudando. Quando cheguei a final do morro já tinha acendido fogueira em mais dez corpos. Você acha que esses corpos entraram nas estatísticas dos 300 mil? Para fazer o caminho de volta, em meio a escuridão, seguimos as trilhas dos corpos incendiados.'' O relato dramático é da embaixatriz do Brasil no Haiti, a paranaense Roseana Kipman. Foi ela quem encontrou o corpo da médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, na noite do terremoto.
Não é só o relato acima que impressiona. A vida da embaixatriz surpreende desde seu nascimento, dentro de um táxi em Curitiba. Aos 13 anos fazia trabalho voluntário na Favela de Parolin, na capital. Com 16 anos, fez as malas e saiu pelas Américas aportou em Nova York. No Harlem - bairro de maioria negra - ajudou os americanos que viviam a margem do sistema.
Entrando na sexta década de vida, a embaixatriz conhece todos países do Ocidente. Chegou ao Haiti para morar em 2008, época em que o marido, também paranaense Igor Kipman, foi nomeado embaixador do Brasil no país. Antes disso já tinha estado no país caribenho em 1998, 2000, 2004 e 2006. ''Nesse momento não seria feliz em nenhum outro lugar. O Haiti aprofundou minhas crenças, o que é maravilhoso, eu trabalho com serviço social a 45 anos, aqui é coroamento de tudo que sei e aprendi'', revela Roseana, envolvida em dezenas de trabalhos assistenciais.
Sobre seu trabalho, Roseana desconversa. Diz que é só uma ponte para toda ajuda que chega. Insiste que o prestígio pessoal do embaixador é fundamental para poder fazer tanto. Também repassa o mérito aos militares e voluntários. ''Me defino como uma mulher corajosa. Não tenho medo de nada. Uma das coisas que mais gosto na vida é brigar. Por isso que faço serviço social, pois brigo com todo mundo, com 'status quo', com a alta sociedade, com quem finge que não vê a miséria. Sou vista no corpo diplomático como louca. Qual a única mulher de piercing no Itamaraty? Tenho piercing desde os anos 70. Meus filhos, sangue do meu sangue, tinham vergonha de mim na escola'', diz, com coragem.
Mas findam os dias de Roseana no Haiti. Em agosto, ela estará de partida para algum lugar da Europa. Se alguém tem dúvida que a ajuda aos mais pobres irá continuar, ela responde. ''Pobreza é pobreza, não tem bandeira. A pobreza nos Estados Unidos é pior que a do Haiti, se levarmos em conta a quantidade de dinheiro que corre naquele país.''

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