'HAITI' Os dramas humanos na nação das catástrofes
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de junho de 2011
Sergio Ranalli <br>Enviado à Porto Príncipe 
São 16h50, o trânsito é insuportável e a vista ora se perde, ora se cansa diante de centenas de carros e milhares de pessoas. A noite começa a flertar o dia, mas não espanta os comerciantes informais das calçadas e do meio das ruas. As obras na construção civil, a poeira e o calor são o tempero desse caldeirão de caos. Acabo de pisar em Porto Príncipe, capital do Haiti.
Já faz mais de 500 dias que a fúria do subsolo haitiano devastou a cidade e o ritmo da reconstrução segue lento. É difícil andar mais que uma quadra sem se deparar com escombros e barracas. Parece inacreditável, mas ainda há 680 mil pessoas vivendo em 500 campos de deslocados no país.
São muitos os dramas que permeiam a nação haitiana. No entanto, nada choca mais que os ''restaveks''. Acordar de madrugada e dar início à rotina dos pesados trabalhos de limpeza da casa. Sem café da manhã, sem roupas para vestir, pés descalços e com o corpo coberto apenas por trapos. Andar centenas de metros, na areia quente, para buscar água. No meio da tarde ser espancado por uma bobagem qualquer. Quando a noite chega traz consigo o risco da violência sexual. Nada de escola nem resto de comida. Assim é a vida de 300 mil crianças haitianas, número estimado pela ONG Restavek Freedom.
''Restavek'' é um termo oriundo das palavras francesas ''rester avec'', que significa ''ficar com''. As famílias miseráveis dão seus filhos para parentes, ou mesmo desconhecidos, que têm melhores condições para criá-los. Um costume arraigado à cultura haitiana. ''A mãe que faz isso, faz na melhor das intenções, senão essa criança vai morrer. Mais quem recebe, não trata de maneira magnífica nem os seus filhos legítimos. Essas crianças dadas passam a ser abusadas de todas as maneiras, fazem o serviço grosso da casa, vão buscar água, estão sempre descalças, nuas. É fácil reconhecê-las nas ruas, por que haitiano não anda mal arrumado'', indigna-se a embaixatriz paranaense, Roseana Kipman, 63.
A reportagem da FOLHA testemunhou a tentativa desesperada de uma mãe para entregar seu filho a um desconhecido. Durante caminhada no pobre e central bairro de Cite Militaire, uma senhora haitiana segurando uma criança aborda uma jornalista brasileira e tenta presenteá-la com a filha. Em choque, a repórter começa a chorar e questiona por que a mulher daria a própria filha. A resposta: ''Se você levar ela embora, é chance dela ter um futuro melhor.''
Na tentativa de minimizar o sofrimento dessas crianças, a freira missionária paranaense Maria Aparecida Scatolin coordena, entre outros projetos, uma escola para 61 restaveks desde 1999. ''Oferecemos até um ano e meio de curso intensivo e depois matriculamos em outras duas escolas. Se não fosse esse trabalho estariam condenadas ao analfabetismo pelo resto da vida'', conta. Para permitir que frequentem a escola, as famílias ''donas'' dessas crianças recebem uma cesta básica.
O jornalista é editor de Fotografia da FOLHA e viajou à convite do Ministério da Defesa.


