Haider põe Uinão Européia à prova
Paris, 03 (AE) - A áustria e seu líder de extrema-direita, Joerg Haider, estão infligindo à Europa uma provação sem precedentes, o que explica a agitação, o corre-corre, o pânico que vêm sacudindo todas as capitais do Velho Mundo, sobretudo Bruxelas, capital da União Européia.
A confusão engendrada por esse drama político transparece na variedade de diagnósticos dos especialistas sobre as consequências do furacão austríaco. Para uns, a Europa sairá dessa provação mais fortalecida, mais capacitada e mais equilibrada; para outros, porém, ficará gravemente ferida.
Os otimistas acham que Haider forçará os países europeus (catorze ao todo, já descontada a áustria) a dar um passo que sempre evitaram, ou seja, serão obrigados a acrescentar aos mecanismos econômicos, financeiros, etc., que formam a substância européia, um estrato político e quase moral, que os obriga a respeitarem determinados valores.
Haider poderá ainda beneficiar a Europa mostrando-lhe que é preciso comprometer-se com um estilo de "integração" cada vez mais dinâmico, num contínuo abandono de soberanias, incluindo-se também aí a política, ponto nevrálgico por excelência. Em outras palavras, a Europa terá de acrescentar ao "direito de ingerência" que já vimos em ação em Kosovo, um outro "direito de ingerência" político, que se aplicaria também aos países membros da União Européia. A Europa atribuiria a si mesma, portanto, prerrogativas de um "supergoverno". Isso lhe permitiria punir um país que elegesse dirigentes incompatíveis com a moral européia.
Os pessimistas analisam a questão de maneira semelhante, mas tiram dela conclusões opostas. Se a União Européia levar às últimas consequências sua razão de ser, terá de aumentar maciçamente sua dose de "integração" e reduzir drasticamente a esfera de soberania dos seus diferentes Estados. Acontece que muitos Estados membros da União Européia, a começar pela Inglaterra, são hostis à idéia de uma Europa integrada, e se recusam a ver diminuída ainda mais a sua soberania. Até mesmo em um país francamente europeu, como a França, encontramos uma significativa minoria de "soberanistas" (dentre eles, o próprio governo) que não estão dispostos a aceitar nem uma dose a mais de integração.
Consequentemente, acrescentam os pessimistas, a Europa ficará paralisada se a áustria puser em prática o programa de Haider. Todas as decisões políticas mais importantes da União Européia têm de ser tomadas em conjunto. Se Haider se mostra hostil à Europa, a áustria poderá usar o seu direito de veto para detê-lo.
Ora, se a Europa se acha travada, será preciso que nos resignemos ao pior, isto é, a uma prova de força cujo desfecho será o desligamento forçado da áustria? Como conceber uma União Européia cujos membros a deixam e a ela retornam ao sabor dos arranjos ministeriais de cada Estado?
Quem tem razão? Os otimistas, que esperam um fortalecimento da União Européia? Ou os pessimistas, que temem um descarrilamento, uma crise ou uma explosão? Não é fácil dizer quem está com a razão. Uma coisa é certa: tanto numa hipótese quanto na outra, esse teste vai obrigar a União Européia a se repensar e a modificar as regras de seu funcionamento.





