Haider continuará sendo o FPO Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 29 (AE) - Jorg Haider demitiu-se da presidência de seu partido (FPO - extrema direita), que se aliou aos conservadores do OVP (democracia-cristã). Se ele fez isso para acabar com as sanções que a União Européia aplicou contra o governo austríaco do chanceler Schussel, não conseguiu: a União Européia não vai moderar sua posição. Apostamos, no entanto, que o rigor da União Européia nem surpreendeu nem decepcionou Haider: ao deixar a presidência de seu partido, o populista austríaco tinha outros planos na cabeça.
Em primeiro lugar, essa demissão não tem importância. Ela se dá no plano "virtual", pois de qualquer maneira o partido extremista FPO não existe sem Haider. Antes de Haider, o FPO conseguia 5% dos votos. Com Haider, mais de 27%. Consequentemente, seja do lado de dentro ou de fora, Haider continuará "sendo" o FPO.
Por que, então, essa saída espetacular de Haider? Estando "ausente" do partido, ele ficará bem mais livre para fazer o que quiser, ou seja, para se opor (é aí que sua arte é mais convincente) e dar livre curso à sua histeria, sem freio algum. Por exemplo, até hoje, se Haider criticava a União Européia ("A Euro é uma falsa categoria") ou se ele revelava sua aversão aos estrangeiros, o mundo inteiro imediatamente urrava contra o governo austríaco de Schussel, e este foi obrigado a se distanciar de seu muito poderoso e brutal apoio. Haider poderá, assim, seguir com mais veemência o papel que melhor desempenha: o de "demolidor", de "destruidor".
Essa demissão dá uma segunda vantagem a Haider: as primeiras semanas de coalizão direita/extrema direita são medíocres, desoladoras, dizem alguns. Isolamento diplomático. Reprovação universal, algumas delas dolorosas: um esgotamento do turismo nesse país de neves magníficas e sem grandes recursos seria um desastre etc.
Além disso, à medida que as semanas passam, constatou-se que, se o dirigente dos conservadores, Wolfgang Schussel, não teve o menor escrúpulo em se aliar com um Haider durante tanto tempo pró-nazista, em compensação muitos amigos políticos de Schussel, também homens de direita, tiveram dificuldade de engolir o sapo.
A revista austríaca Format nos mostra que cada uma das "derivas linguísticas" de Haider semeia o pânico nos altos círculos do partido conservador de Schussel. Christoph Leil, uma das figuras proeminentes dos conservadores acusa Haider de ser "um ninfomaníaco do microfone", submisso a uma "paixão suicida". Outra figura da direita, Bernhard Gorg, dirigente da célula vienense dos democrata-cristãos, acusou duramente o chanceler Schussel de estar ligado a Haider. A mesma atitude teve Franz Fishler, o comissário europeu da agricultura.
Então, é claro que o governo direita/extrema direita está frágil, ameaçado de estrangulamento no exterior e de implosão dentro de si mesmo. Neste caso, Haider tem todo o interesse em não naufragar com o navio que ele próprio construiu, aparelhou e lançou. Ele o abandona antes da tempestade. E se a tempestade, de fato, precipitar-se, o bloqueio austríaco é tamanho que, sem dúvida, será necessário convocar eleições gerais.
Nessa hipótese, Haider prevê que seu comportamento de homem "acima dos partidos", sua saída provisória do cenário público podem assegurar-lhe uma verdadeira vitória eleitoral e, portanto
esse "lugar de chanceler" com o qual ele sonha há tanto tempo segundo sua própria declaração.
Eis por que a demissão de Haider não atenuou a desconfiança que a União Européia tem em relação à equipe de Wolfgang Schussel. Ao contrário: Haider é bem mais perigoso agora que se encontra livre.
Quanto a Schussel, já pouco admirado ( e até mesmo considerado por alguns como pior do que Haider), não está perto de emanar o "cheiro de santidade".





