Jacarta, 11 (AE) A explosão de violência em Timor Leste é resultado de uma desastrosa sequência de erros de cálculo político do presidente da Indonésia, B. J. Habibie, visando à eleição presidencial de novembro. De acordo com analistas indonésios ouvidos pela Agência Estado, Habibie julgou que a solução para o problema de Timor Leste lhe garantiria o apoio da comunidade internacional e, com ele, a reeleição. Precipitou-se e meteu os pés pelas mãos.
A sequência de erros começou com um blefe: a escolha, oferecida por Habibie aos timorenses, entre seu plano de autonomia e "independência já"; continuou com a tentativa desesperada de criar um fato consumado no território, sem o consentimento dos militares; culminou tragicamente na matança e deportação maciças de timorenses e na corrida contra o relógio para conter milicianos ensandecidos apoiados pela linha-dura do Exército, enquanto a comunidade internacional se move lentamente para esboçar reação.
O blefe foi lançado no dia 27 de janeiro. Habibie, o herdeiro de uma Indonésia econômica e politicamente em frangalhos, quis dar impulso à própria fórmula de solução para um dos principais problemas do país: a luta separatista em Timor Leste, abandonado por Portugal em 1975 e anexado pela Indonésia no ano seguinte. Habibie tinha um plano de ampla autonomia para Timor Leste e estava consciente de três coisas:
1) Os líderes separatistas, almejando a independência, não se contentariam com a autonomia;
2) Esses mesmos líderes, no entanto, consideravam temerária a independência imediata e defendiam um período de transição, de cerca de dois anos, durante os quais o território ficaria sob mandato especial e se prepararia a criação de um Estado;
3) As Forças Armadas rejeitavam a idéia de independência
por questões de honra e de estratégia: dezenas de milhares de soldados morreram nos últimos 24 anos para assegurar o domínio indonésio sobre o território e os militares temem que sua independência possa abrir uma caixa de Pandora, liberando movimentos separatistas noutras ilhas e levando à fragmentação do país.
Diante dessas três constatações, Habibie teve a idéia de apresentar aos timorenses a escolha entre duas opções radicais: o plano de autonomia ampla ou independência já, apostando na inibição dos timorenses diante da perspectiva de súbita independência. Entretanto, Habibie não surpreendeu apenas os timorenses. E isso contaria, mais tarde.
"Muita gente no governo ficou surpresa pela decisão, incluindo os militares, que não estavam esperando que isso fosse acontecer tão rápido", diz Iwan Jaya Azis, professor de Economia na Universidade Cornell (Estado de Nova York), cuja família é proprietária de um dos principais jornais indonésios, o "Surabaya Post".
"Os militares não foram consultados e eles, sim, sabiam qual seria o resultado desse plebiscito."
O descontentamento dos militares foi fermentando de maio
quando o plebiscito começou a ser organizado, com enviados estrangeiros e US$ 53 milhões da ONU, até agosto, quando os timorenses desafiaram os milicianos e votaram maciçamente em favor da independência, fazendo cair por terra a última cartada preparada pelos anti-separatistas: a invalidação do plebiscito por alta abstenção. Restaria a violência.
Mas por que Habibie fez uma aposta tão arriscada? "Ele estava buscando apoio da comunidade internacional, visando à eleição presidencial de novembro (pela Assembléia Consultiva do Povo)", interpreta Azis. Depois de lançar seu plano, o presidente passou a menosprezar o valor de Timor Leste para a Indonésia.
Habibie chegou a descrever o território como "nada além de pedras", disse que a anexação se dera "por razões humanitárias" e 93% dos investimentos em seu desenvolvimento provinham do governo central.
O professor Azis, ex-conselheiro dos Ministérios das Finanças e da Indústria, concorda que Timor Leste não representa interesse econômico para Jacarta. O território produz café e petróleo, como muitas outras partes do arquipélago. "A questão é política." E militar.
"As Forças Armadas ficaram muito contrariadas com a imprevisível política de Habibie para Timor Leste", atesta Tjipta Lesmana, professor de Sociologia e Política na Universidade da Indonésia.
"Oficialmente, seu comandante, o general Wiranto, teve de apoiar a política do governo, mas, por trás dos bastidores, os militares sabotaram-na, treinando milicianos pró-Indonésia e fornecendo-lhes equipamento militar."
Os milicianos surgiram em janeiro, quando os militares e grupos anti-separatistas de Timor Leste pressentiram que Habibie
protagonista de uma abertura política na Indonésia, com inédita liberdade de imprensa, afrouxaria o domínio sobre o território.
Mais que isso, o presidente revelou "estilo impulsivo"
diz Lesmana. A Assembléia Consultiva do Povo aprovou, em 1978, lei transformando Timor Leste em parte integrante da Indonésia. Para que o resultado do plebiscito tivesse valor legal, ele teria de ser referendado pela Assembléia. "Habibie fez o anúncio do plebiscito sem consultar a Assembléia e quis apresentar a ela um fato consumado", recorda Lesmana. O Legislativo, poder de direito, foi tão atropelado pelo presidente quanto as Forças Armadas, poder de fato na Indonésia.
O resultado foi a reafirmação do poder de fato. "A imposição da lei marcial em Timor Leste na terça-feira corrobora a amarga realidade de que o poder real neste país está nas mãos dos militares", frisou o jornal "The Jakarta Post", em editorial.
"Aqueles que não percebem isso provavelmente ficaram confusos com o fato de o estado de emergência ter sido declarado poucas horas depois de a proposta, apresentada pelos militares, ser rejeitada num encontro do presidente com os líderes do Parlamento e na reunião do gabinete."
Além de reafirmar o poder dos militares, os atos de violência em Timor Leste também tiveram o propósito de enviar um recado para os que aspiram a independência noutras das 30 mil ilhas que formam esse país de 200 milhões de habitantes, dividido em centenas de etnias, línguas e dialetos.
"Se outros grupos quiserem independência, agora sabem que isso não é sem custo, que têm de pagar um preço muito alto"
analisa Azis, embora acredite, pessoalmente, que "o receio de fragmentação não tenha respaldo em evidências concretas".
Para ele, as aspirações de maior autonomia noutras ilhas têm caráter eminentemente econômico e poderiam ser atendidas na esfera econômica. "São regiões que acreditam estar sendo tratadas de maneira injusta porque enviam para o governo central mais recursos do que dele recebem."
Para os militares indonésios, contudo, a integridade do arquipélago é a razão de ser das Forças Armadas. Ao assegurá-la, ainda que lançando mão da ação clandestina dos milicianos, as Forças Armadas mediram forças com o presidente e venceram. O tiro de Habibie saiu pela culatra. E deixou centenas de mortos.

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