No dia 19 de agosto de 1961, o presidente da República, Jânio Quadros, condecorou Ernesto ''Che'' Guevara, um dos líderes da revolução cubana, e determinou a prisão disciplinar dos pilotos de um jato da Força Aérea Brasileira (FAB), por terem transportado até Londrina uma loira estonteante, para a Boate Diana. Tais fatos não se relacionam, é claro, à renúncia do Presidente, seis dias depois - em 25 de agosto.
O caso da loira, promovida à ''bailarina'', fora notícia nacional realçada pelo rigor do Presidente, que já proibira o maiô em concursos de beleza, a pedido da Liga das Senhoras Católicas de Curitiba. Em Londrina, o folclore já havia estendido a aviões o pejorativo aplicado às charretes - ''balaio de puta'' -, em especial a um Scândia que pousava em fins de semana cheio de mulheres. Mas ''bailarina'' de boate chegar em avião da FAB era novidade absoluta.
Um dos personagens da história é o piloto Waldemir Hermes de Oliveira, hoje aposentado. À época, com 14 anos, Waldemir ainda queria ser piloto. Herdara a vocação do pai, Moacyr Ubirajara de Oliveira, e do tio Joel Hermes. Na tarde de 9 de agosto de 1961, um jato da FAB cruza o céu londrinense, despertando a atenção de Waldemir - ''Esse eu não conheço!''. Chega ao aeroporto e fotografa o jato prefixo C-413921.
Só ficou sabendo que havia produzido ''prova'' quando Wilson Silva, piloto e repórter da Folha de Londrina, o procurou pedindo que emprestasse o filme. O avião trouxera uma loira de ''fechar o comércio'', a Maura, para fazer salão na Boate Diana. A foto saiu também na primeira página da Folha de S. Paulo de 11 de agosto, com a seguinte legenda: ''O jato 'Paris' no aeroporto de Londrina, na foto de Waldemir Hermes de Oliveira''. E texto com o título ''Jato da FAB foi do Rio a Londrina só para levar a bailarina para a boate''.
A cidade era ''capital'', segundo o jornal: ''LONDRINA, 10 (FSP) - Por volta das 17h30 de ontem desceu no aeroporto desta capital um avião a jato da FAB, do tipo 'Paris' (usado em alguns voos presidenciais), de prefixo C-412921, tripulado por oficiais da Força Aérea, que veio especialmente para trazer, do Rio de Janeiro, uma mulher. A passageira, conhecida pelo nome de Maura, era esperada no aeroporto por um grupo de mulheres entre as quais a proprietária da boate ''Chez Diana'', conhecida como casa de tolerância. Maura, agora - ao que apurou a reportagem -, encontra-se naquela boate.''
Adiante, a reportagem afirma que os oficiais da FAB, comandados por um
major, ''despediram-se da companheira'' e reabasteceram o avião com gasolina, porque não havia querosene nas distribuidoras locais. O administrador do aeroporto, Vitorino Dantas, ''nada viu'', ''só ouviu alguns comentários posteriores''. No dia 11, o coronel César Leal Coqueiro, do gabinete do Ministro, afirma que ''os autores da irregularidade serão severamente punidos e poderão, inclusive, pagar do próprio bolso o combustível usado''. Já o coronel Costa Matos, do Estado-Maior da Aeronáutica, considera o fato ''gravíssimo''. O avião pertencente à Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos, cujo comandante, brigadeiro Carlos de Oliveira Sampaio, seria solicitado a prestar esclarecimentos ao Estado-Maior.
Ao contrário, no dia 14, o gabinete do Ministro, em nota oficial, considera rotina a presença de passageiros civis. ''Na etapa São Paulo-Londrina foi transportada uma passageira, por decisão do comandante do avião, tendo em vista existir lugar e não constituir o transporte nenhuma alteração
na missão do voo'', diz a nota. ''O avião regressou ao Rio trinta minutos após o pouso em Londrina, em cumprimento ao restante da missão de instrução. A apuração da ocorrência foi objeto de sindicância determinada pelo Exmo. Sr. Ministro (...) ao comandante da Escola de Aeronáutica''.
Contudo, em 19 de agosto, Jânio passa um ''bilhete'' ao chefe da Casa Militar: ''De minha ordem, determine a S. Excia., o Ministro da Aeronáutica, fazer prender, por três dias, toda a tripulação do jato que levou uma bailarina a Londrina. A prisão deve ser feita hoje''.

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