Há famílias que devolvem as crianças
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sábado, 05 de julho de 1997
Célia Baroni Londrina 
À espera do larCrianças de instituição em Londrina: especialistas dizem que preparo dos pais é essencial para adoçãoEmbora não sejam frequentes, também não são raras histórias de casais que adotam e depois de algum tempo, até anos, devolvem a criança ao Fórum. A justificativa mais comum é a incapacidade de controlar a criança adotada. Um exemplo é o caso da menor B.F.S, hoje com 9 anos de idade - uma das crianças que terá seu nome incluído na lista encaminhada ao Ceja.
Ela foi adotada por um casal quando tinha quatro anos. Sua mãe adotiva morreu três anos depois, deixando-a com o pai e um irmão adulto. O pai adotivo resolveu então devolvê-la. Para a Justiça, alegou que não tinha mais como cuidar da menina e que ela era muito respondona. A menor tinha acabado de completar 7 anos. Não houve meios de convencê-lo a ficar com a menina. O pai adotivo chegou a proibir familiares - mesmo a avó adotiva - de visitá-la.
Quando um filho passa por fases difíceis, os pais buscam alternativas para ajudá-lo a superar o problema. E mesmo aqueles que se desesperam costumam questionar a si próprios enquanto educadores. No caso dos filhos adotivos, há pais que se sentem no direito de simplesmente devolver a criança, chegando ao cúmulo de justificar para si mesmos que não são seus filhos, e não têm porque passar por isso, conta a psicóloga Télcia Lamônica Azevedo. Ela trabalha como voluntária no Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon), instituição que atende crianças e adolescentes em casas-lares.
Télcia Azevedo deixa claro que não é só a adoção tardia (de crianças maiores de três anos) que resulta em casos de devolução. E conta que uma senhora adotou criança de poucos meses e a devolveu com três anos de idade. Ela justificou a atitude, dizendo que a criança era desobediente, não parava quieta e dava muito trabalho. Eu mesma a entrevistei e questionei porque ela não estabelecia limites, educando a criança. Ela respondeu indignada, dizendo que não poderia repreender filho dos outros.
Para a psicóloga, as pessoas ainda estão despreparadas para adotar. Télcia analisa que os motivos mais frequentes que levam à adoção são ligados a carências pessoais do casais, que pensam em resolver seus problemas com filhos. Quando a criança não corresponde ao sonho idealizado, e o casal não está maduro para enfrentar os problemas, a tendência é a rejeição. A única carência que justifica uma adoção é querer realmente um filho. E filho a gente não escolhe. Tem que ser amado, educado e aceito como é.
Defensora da adoção de crianças grandes, a coordenadora técnica administrativa da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja), Jane Pereira Prestes, afirma que desconhece casos de devolução de crianças por casais brasileiros, em Curitiba. Mas concorda com a psicóloga do Nuselon: No Brasil não há uma cultura de adoção. Pelo menos nesse ponto é inegável que os casais estrangeiros têm mais preparo emocional e psicológico.
Ela relata que, em todo histórico da Ceja, apenas uma adoção internacional não se concretizou. No último momento, a criança desistiu porque ainda tinha esperanças de que os parentes biológicos a assumissem. Ela continua institucionalizada até hoje.


