Brasília- Depois de ouvir os depoimentos de sete procuradores do Ministério Público Federal sobre a situação dos aeroportos em seis Estados (SP, RJ, ES, MT, PE e AP), o relator da CPI do Apagão Aéreo no Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), disse estar certo de que ''há crime organizado'' dentro da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero).
''Licitações dirigidas, projetos básicos lacunosos, projeto executivo modificado; as obras eram feitas com os preços que se quisesse; ninguém tinha controle'', afirmou Demóstenes. ''Ao ouvir os depoimentos dos procuradores, fica claro que a história se repete em todo o País. Mas só depois se percebeu que era algo organizado. Um grupo de sete ou oito empreiteiras do Brasil arrebataram todas as obras (de modernização dos aeroportos feitas pela Infraero)'', prosseguiu o senador.
Antes da audição de ontem, a CPI já havia ouvido na terça-feira (7) outros três procuradores da República que também confirmaram irregularidades nas obras da Infraero em São Paulo, Campinas, interior paulista, e Goiânia.
Por quase três horas, os procuradores confirmaram denúncias que já haviam sido levantadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de irregularidades nas obras dos aeroportos e superfaturamento. Os desvios não se restringiram a obras de reforma, mas também, no caso de Pernambuco, foi detectada irregularidade na compra de obras de arte que fazem parte da decoração do Aeroporto Guararapes Gilberto Freire, em Recife.
Segundo Marcelo Mesquita Monte, procurador da República em Pernambuco, foi gasto R$ 1 milhão na compra de sete obras de arte. ''Há suspeita de que a mulher de Carlos Wilson (ex-presidente da Infraero) era sócia de uma empresa que negociou as peças'', afirmou Torres após o depoimento de ontem.
O procurador da República em Guarulhos, onde está localizado o Aeroporto de Cumbica, Matheus Baraldi Magnani, reclamou da ''blindagem'' que a Aeronáutica e o Ministério da Defesa têm feito, o que prejudica as investigações do Ministério Público. ''Há um abismo entre a Aeronáutica e toda a sociedade brasileira'', disse. Ele defendeu a criação de uma força-tarefa em Guarulhos para investigar ''de maneira contínua'' a atuação da Infraero, ''já que ela lida com obras de valores vultosos''.
Ao final do depoimento de ontem, o relator da CPI do Apagão no Senado também informou que a comissão vai sugerir em seu relatório final modificações na lei de licitações (Lei 8.666/93) e pedirá a aprovação urgente da lei que combate o crime organizado.
Na próxima terça-feira (14), às 11 horas será realizada nova reunião da CPI para ouvir pessoas envolvidas com o resgate de corpos e pertences das vítimas do acidente com o avião da Gol ocorrido em 29 de setembro de 2006. Há denúncias de que objetos das vítimas teriam sido roubados. Ainda não há definição sobre quem serão os convidados para a reunião.

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