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Londrina

GERAL

m de leitura Atualizado em 30/07/2022, 10:26

Há 80 anos o Brasil ingressava na Segunda Guerra Mundial

Professor de História aponta que Londrina sofreu muito com a entrada do país no conflito, porque era considerada uma colônia internacional

PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de julho de 2022

Vítor Ogawa - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

Foto: Gustavo Carneiro
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O dia 22 de agosto deste ano marcará os 80 anos da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Foi quando o país declarou guerra à Alemanha nazista e à Itália fascista. Depois de manter uma diplomacia pendular tanto em relação aos Aliados como em relação ao Eixo, o então presidente Getúlio Vargas acabou optando por aderir aos Aliados, após navios mercantes brasileiros terem sido torpedeados e, também, depois que o Brasil foi presenteado pelos americanos com a construção de uma usina siderúrgica, em Volta Redonda (RJ). Vale lembrar que Vargas tinha grande afinidade com o nazi-fascismo, a ponto de empreender forte perseguição aos judeus no seu governo. 

“Aqui havia um caldeirão étnico. Os que mais sofreram foram os alemães e os japoneses", relata Soares “Aqui havia um caldeirão étnico. Os que mais sofreram foram os alemães e os japoneses", relata Soares
“Aqui havia um caldeirão étnico. Os que mais sofreram foram os alemães e os japoneses", relata Soares |  Foto: Gustavo Carneiro
 

Os ataques do Eixo a embarcações brasileiras começaram um ano antes, mas o fato determinante ocorreu em agosto de 1942, quando cinco navios brasileiros foram bombardeados supostamente pelo submarino alemão U-507, resultando na morte de mais de 600 brasileiros. O Brasil só entrou na guerra contra o Japão no dia 5 de junho de 1945.

Embora a declaração da guerra inicial contra dois países do Eixo tenha sido publicada em 1942, em 1939 já havia uma lei que afetava os imigrantes. “Era para impor o nacionalismo, coagindo para que eles se identificassem com a cultura brasileira. Essa lei passa a ter um uso muito largo a partir da entrada do país na guerra”, explica o professor Marco Antonio Neves Soares, do Departamento de História da UEL (Universidade Estadual de Londrina). A lei foi tão draconiana, diz Soares, que alterou as nomenclaturas de uma série de municípios devido às suas origens estrangeiras.

“Um exemplo clássico é Cambé, que primeiramente se chamava Neu Dantzig. Depois, virou Nova Dantzig e, durante a guerra, mudou o nome para Cambé. Rolândia também teve esse problema, e passou a se chamar Caviúna, que é o nome de uma árvore. No pós-guerra, Rolândia recuperou o seu nome original.” 

O professor ressalta que Londrina sofreu muito com a entrada do Brasil no conflito, porque era considerada uma colônia internacional. “Aqui havia um caldeirão étnico. Os que mais sofreram foram os alemães e os japoneses. Os italianos que estavam em grandes centros também eram vigiados de perto, a ponto de o time Palestra Itália ter que mudar o nome para Palmeiras. No interior os italianos foram menos perseguidos, talvez porque seus costumes fossem mais próximos dos brasileiros que os dos demais estrangeiros.”  

EX-MINISTRO EM APUROS

A lei preconizava que os imigrantes falassem apenas o português e baniu o uso dos idiomas nativos de alemães, italianos e japoneses. “Tem um episódio famoso ocorrido em Arapongas, com um dos senhores que fundaram Rolândia, que é um sujeito que foi ministro do Interior e da Justiça e também foi vice-chanceler da República de Weimar, Erich Koch-Weser. Ele foi para Arapongas e encontrou com um amigo em um bar, com quem conversou em alemão. Foi denunciado à polícia e precisou explicar que ainda não sabia o português. Quase foi parar na prisão. Outro que quase foi parar na prisão pelo mesmo motivo foi Oswald Nixdorf, pioneiro de Rolândia”, aponta o professor.

Naquele tempo os imigrantes dos países do Eixo precisavam circular portando um salvo-conduto, documento emitido pela autoridade policial. Era a garantia de que não haveria desvios no trajeto e por meio dele havia uma certa vigilância sobre os passos dos imigrantes. Também havia controle nos portos, aeroportos e nas fronteiras, sobretudo no Paraná. Os registros de estrangeiros do Eixo eram conferidos meticulosamente. “Do lado de lá da fronteira, no Paraguai e na Argentina, a quantidade de italianos e de alemães era bastante razoável e, segundo o governo federal, representava um perigo para a região.”

REGIÃO COSTEIRA

No dia 25 de setembro de 1942, os japoneses, italianos e alemães receberam ordem do governo para abandonar as cidades na faixa de 60 km da região costeira, em um prazo exíguo de 24 horas. A delegacia de Antonina, naquele dia, removeu 85 imigrantes da cidade, dos quais 53 eram japoneses, 10 alemães e 22 italianos, que perderam suas propriedades. Um dos locais afetados pela determinação foi a colônia Kakatsu, nome aportuguesado para “Cacatu”, habitada por japoneses que vieram a convite do governo paranaense e onde se fazia o plantio de banana.

O interventor Manoel Ribas determinou que os japoneses fossem deslocados para Curitiba, onde parte das famílias se acomodou, mas algumas delas foram direcionadas para a Escola Agrícola Militar, de Castro, em uma colônia agrícola. Várias famílias permaneceram no mesmo barracão. O local não tinha fossas, cozinhas e locais de banho adequados e em número suficiente.

“Essa colônia penal abrigava pessoas que desafiavam a legislação, que continuavam falando as suas próprias línguas, independentemente da idade, e que tinham dificuldade em aprender o português e os costumes brasileiros. Também reunia aqueles que, segundo o governo, atentaram contra a segurança nacional”, aponta Soares. 

O DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) e a Dops (Delegacia de Ordem Política e Social) eram órgãos de repressão que funcionavam com intensidade na época. “Eles conseguiam pressionar as comunidades para atender os pleitos do Getúlio Vargas, não raramente com violência. Depois de um determinado tempo na cadeia, fatalmente a pessoa mudava de opinião acerca da sua integração em relação ao Brasil, porque a tortura era um dos instrumentos do Dops”, explica o historiador. 

Um dos prontuários que constam no arquivo da Dops, por exemplo, é o do corretor pioneiro de Londrina, Hikoma Udihara. Nele há um ofício em que o delegado de Ordem Política e Social pede ao delegado da regional de Londrina que destituísse o imigrante do cargo de agente da CTNP (Companhia de Terras Norte do Paraná) ou, pelo menos, reduzisse o exercício das atividades dele, além de submetê-lo à permanente vigilância, mesmo ele tendo um filho servindo o Exército (oficial de reserva, convocado) e tendo requerido sua naturalização antes da guerra. Apesar de estar morando havia 35 anos no Brasil, Udihara foi considerado, na época, "perigoso como os demais".

Ainda em relação à CTNP, que possuía capital britânico, havia um certo cuidado para evitar problemas que interferissem em seus negócios, já que muitos compradores de terrenos por aqui eram dos países do Eixo. O alemão Erich Koch-Weser era dono de uma empresa que intermediou a chegada de judeus a Rolândia. Posteriormente, no entanto, vieram membros do partido nazista para a localidade.

“Houve o hasteamento da bandeira nazista durante o aniversário de Adolf Hitler em uma escola e isso fez que os de origem judaica evitassem colocar os filhos nessa escola e adotassem o 'homeschooling'”, revela Soares. A situação foi apaziguada pela CTNP, para evitar que interferisse nos negócios e no relacionamento político com o governo federal. 

PRACINHAS

Em julho de 1944, foram enviados 25 mil soldados brasileiros para os campos de batalha na Itália, onde a FEB (Força Expedicionária Brasileira) serviu. Desse total, perto de 1,5 mil eram paranaenses. A região de Londrina já foi residência de alguns ex-combatentes que atuaram durante a Segunda Guerra Mundial. Pesquisas apontam, no entanto, que os últimos deles morreram há cerca de quatro anos. 

Um deles foi Américo de Souza Castro, trabalhador rural de Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina). Em 2010, em entrevista à Folha de Londrina, ele relatou que na época da guerra se dirigiu à Junta Militar que funcionava no escritório da Companhia de Terras Norte do Paraná, em Londrina, e foi convocado.

Segundo Castro, a viagem de navio até a Itália durou 16 dias e foi “um verdadeiro inferno”. ''Viajei no porão, junto das máquinas, um calor infernal. Para todos comerem, a refeição tinha que ser servida de hora em hora, para que cada um conseguisse pegar um prato'.'

Na Itália, Castro era o mensageiro da tropa, encarregado de levar bilhetes com instruções dos comandantes para os combatentes. Andava sozinho, carregando um estoque de munição e de medicamentos, além do próprio fuzil. ''A ordem era muito clara. Eu podia morrer, mas os alemães jamais poderiam ler o bilhete que eu levava. Caso os encontrasse eu deveria engolir o papel imediatamente. Graças a Deus nunca os encontrei'', contou Américo, à época.  Ele morreu no dia 20 de outubro de 2013, aos 93 anos, em Londrina.

Em 239 dias de ação, os Pracinhas brasileiros prenderam 20 mil alemães, contudo 451 soldados brasileiros morreram ou desapareceram em combate - 27 deles eram paranaenses. Outros 1,6 mil se feriram ou se acidentaram no norte da Itália durante as batalhas. Os paranaenses mortos em combate são Adão Wojcik (natural de Araucária), Anélio de Campos Luz (Cerro Azul), Antonio Cação (Cerro Azul), Bruno Estrifica ( Ipiranga), Constantino Marochi (Campo Largo), Eurides Fernandes do Nascimento (Quatiguá), Eliseu José Hipólito (São João do Triunfo), Estanislau Wojcik (Araucária), Francisco Alves de Oliveira (Antonina), Francisco Perreira dos Santos (São José dos Pinhais), Gumercindo da Silva (Rio Negro), Hermínio Cardoso de Melo (São José dos Pinhais), Hernesto Gonçalves (Paranaguá), João de Oliveira Carmo (Castro), José Domingues Pereira (Campo Largo), João Fagundes Machado (São José dos Pinhais), João Florindo Zanetti (Campo Largo), João Maria Batista (Guarapuava), João Protzek (Irati), José Lima (Rio Azul), José Wsoek (Araucária), Leonidas Moreira (Paranaguá), Luiz Stoeberl Filho (Rio Negro), Marcelino Jazinski  (Araucária), Max Wolf Filho  (Rio Negro), Rodolfo Gomes de Campos (União da Vitória), e Simplicio Vieira de Lara (São João do Triunfo). 

CARA PREOCUPADA

A professora Estela Okabayashi Fuzii, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), tinha oito anos quando a Segunda Grande Guerra eclodiu. “Embora tivesse pouca idade, via os meus pais falando baixo, com uma cara preocupada. Eu não entendia nada e ficava xeretando”, conta. Como o idioma japonês se tornou proibido, os livros repletos de ideogramas se tornaram um risco para quem os mantinha. “Meu primo era superintendente da maior editora do Japão e mandava muitas publicações. Meu pai lia muito e não queria perdê-los. Eu o vi encaixotando todos eles, mas não sei para onde os levou. Como era criança, não perguntei. Quando acabou a guerra, esses livros voltaram para o armário”, relembra.

Da mesma forma, a vitrola da família também foi escondida, assim como os discos de vinil japoneses. “Quem tinha vitrola ou enterrava ou ela era tomada. Quem tinha rádio também estava sujeito ao confisco do aparelho. Os japoneses queriam ouvir notícias país de origem sobre a guerra, mas tinham que fazer isso escondidos. Muitas vezes a polícia ia até as casas das pessoas de madrugada para flagrar isso”, acrescenta.

A professora relata uma experiência pessoal sobre a vigilância que os japoneses sofriam. “Um dia eu estava na avenida Paraná e meu pai estava conversando em japonês comigo e com minha irmã. De repente, um homem bateu nas costas do meu pai e falou que meu pai não podia falar japonês. Eu fiquei assustada.”

A mãe de Estela também foi interpelada quando conversava sobre a guerra com  a alemã Helene Schultheiss, proprietária de uma padaria na então avenida Paraná (hoje avenida Celso Garcia Cid). “A gente ia comprar pão e manteiga e um sujeito falou que era da polícia e alertou que era proibido conversar sobre a guerra. Ele sabia que a mulher da padaria era alemã e minha mãe tinha cara de japonesa. Ele estava à paisana e estava lá para flagrar mesmo.” 

A vigilância era exercida de maneira nada sutil. Como a maioria das casas era de madeira, Fuzii se recorda que policiais tinham o hábito de encostar os ouvidos nas paredes, do lado externo, para ouvir os diálogos de dentro dos imóveis. “Foram presos alguns conhecidos de meu pai. Ele comentava que alguns ficaram detidos em Londrina e outros foram mandados para a prisão em Curitiba. Meus pais conversavam sobre isso muito preocupados e comentavam quando alguns conhecidos não retornavam.”

RACIONAMENTO

O período da 2ª Guerra Mundial também foi marcado pelo desabastecimento de alimentos e insumos como o combustível. Foi nessa época que surgiu o ônibus Pavão, da Viação Garcia, que era um veículo a gasogênio, ou seja, movido a lenha, uma vez que não havia petróleo disponível.

Imagem ilustrativa da imagem Há 80 anos o Brasil ingressava na Segunda Guerra Mundial Imagem ilustrativa da imagem Há 80 anos o Brasil ingressava na Segunda Guerra Mundial
|  Foto: Gustavo Carneiro
 

Havia racionamento de farinha e açúcar e a distribuição era feita próxima ao atual Cine Ouro Verde. Segundo a professora Estela Okabayashi Fuzii, vários locais em que funcionavam escolas japonesas encerraram as atividades. Uma delas, na esquina das atuais ruas Maranhão e Mato Grosso, tornou-se ponto de distribuição de alimentos com venda controlada.

“Era uma casa de madeira que ficava bem no fundo do terreno. No início a venda era por pessoa. Quem tinha três pessoas na família, iam as três. Quem tinha cinco membros na família, iam para o local as cinco pessoas. Quando os distribuidores viram isso, limitaram a venda para uma pessoa por família. Tinha vistoria da fila, mas como não conheciam todas as famílias, muitos começaram a colocar os membros da família intercalados com outras pessoas. Alguns, que eram identificados como sendo da mesma família, eram retirados da fila, mas outros conseguiram pegar.” 

A espera pela vez era grande. A fila atravessava a rua e ia até a metade da praça que ficava em frente ao atual Cine Teatro Ouro Verde. “Eu era menininha, e olhava para trás e parecia que a fila não acabava”, conta Estela.

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