Há 30 anos morria Francisco Mesquita
São Paulo, 07 (AE) - O ano de 1969 assinala na vida do Grupo Estado duas grandes perdas. Sucessivamente, no intervalo de uns poucos meses, entre julho e novembro, faleceram os irmãos Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, seus diretores, continuadores diretos de Julio Mesquita. Amanhã (08) transcorre o trigésimo aniversário da morte de Francisco Mesquita, o dr. Chiquinho.
Lembrá-lo, mais do que uma homenagem, é um ato de justiça. Ele era conhecido principalmente por seu temperamento introvertido. Mas enganava-se quem se deixava levar pela sua aparente sisudez, a esconder uma personalidade forte e uma figura humana plena de sensibilidade.
Ao longo de mais de quatro décadas, coube ao dr. Chiquinho gerir a administração da S.A. O Estado de S. Paulo. Ligaria assim o seu nome a uma das maiores transformações empresariais já verificadas na imprensa em nosso país. E o fez, sempre, sem perder de vista a vocação liberal do jornal, sua influência na opinião pública, sua projeção nacional e internacional, que ele ajudou a criar, tendo como norma a prevalência dos princípios sobre os interesses materiais.
Foi este o papel de Francisco Mesquita na imprensa brasileira, corroborado por uma atuação desinteressada e idealista na vida pública de São Paulo.
Embora sem registro escrito, são parte inseparável da história do jornal, após a morte de Julio Mesquita (1927), as reuniões diárias dos dois irmãos, por volta das 10 ou 11 horas na sala do dr. Chiquinho, onde se inteiravam do tema do principal editorial do dia - a "nota um", como era denominado - e da situação empresarial. Rotina reveladora de que não se situavam em áreas estanques ou rivais e de que o entendimento entre ambos era perfeito.
Coragem- Eliminavam assim aquela profunda dicotomia, referida por Arnaldo Pedroso Horta, que frequentemente opõe, nas empresas jornalísticas, os interesses da administração e a orientação da redação. A propósito escreveu Arnaldo, num artigo no Jornal da Tarde: "O Estado teve a sorte de, graças à pessoa de Francisco Mesquita, constituir uma notável exceção a essa regra quase obrigatória. Guiado por um impecável senso moral e servido por uma tranquila coragem, o irmão de Julio de Mesquita Filho, ao invés de constituir, na gerência do jornal, um contrapeso à combatividade que este imprimia à direção da redação, era seu gêmeo na compreensão da maneira de exercer o jornalismo."
E acrescentava: "É ao segredo desse permanente entendimento entre a gerência e a redação que se deveu, neste caso, a firme ascensão do jornal no meio social a que representa e a que serve, e isso foi possível porque os interesses econômicos imediatos jamais interferiram com o noticiário ou os comentários."
Pedro Dantas, pseudônimo de Prudente de Moraes Neto, corroborou num outro artigo, este de O Estado, afirmando que os dois irmãos, unidos pelo sentimento, pela formação e pela identidade de opiniões, "completavam-se, no mais perfeito entrosamento das atribuições que preferentemente exerciam à frente do Estado, que precisava da dedicação e do entendimento de ambos, para atingir o nível a que chegou, como empresa e como órgão representativo do pensamento e da cultura de nosso país".
A colocação assim formulada por dois jornalistas de rara individualidade é indispensável para que se compreenda, o lugar proeminente de Francisco Mesquita na vida do Estado e na preservação de sua independência.
Governo dos 40 Dias - Após a vitória da Revolução de 30, Francisco Mesquita integra, como secretário de governo, o chamado e ainda hoje controverso Governo dos 40 Dias, presidido por José Maria Whitaker. Mas as desilusões logo se avolumam. Assediado de um lado pelos tenentes vitoriosos, que tinham ascendência sobre Getúlio Vargas, chefe do governo Provisório, e de outro pelo PRP ressentido, o Partido Democrático, não teve, ou não lhe deram, condições para governar São Paulo. Por causa disso o governo se demitiu coletivamente.
Chiquinho Mesquita volta a conspirar. Por demais conhecidas as circunstâncias que, afinal unidos os paulistas, levaram à Revolução Constitucionalista de 1932 e ao 9 de Julho, passando pelo 23 de Maio. Foi ele um dos seus principais articuladores. Já com quase 40 anos, pai de três filhos pequenos
Francisco Mesquita recusa qualquer posição de destaque e alista-se no movimento como simples voluntário - primeiro no 4.º RI, de Quitaúna, para na frente Norte (Vale do Paraíba) passar a integrar o Batalhão Voluntários de Piratininga, uma tropa de escol.
Parte a 19 de julho, dez dias depois de deflagrado o movimento. A 19 de agosto, o cabo Chico, apelido que tinha entre os colegas, é feito prisioneiro no morro da Pedreira, perto do reduto constitucionalista de Vila Queimada. Levado para a Ilha Grande, é dali, livres todos os demais prisioneiros, conduzido à Sala da Capela. Seu depoimento de prisioneiro é uma página forte de convicção democrática.
Afirma estar convencido de que "se fazia mister continuar a luta em que vinha empenhado desde a fundação da Liga Nacionalista e posteriormente no Partido Democrático pela implantação de um regime de representação verdadeira da vontade popular."





