Há 30 anos, a luta armada perdia seu principal líder
Daniel Biasetto
Agência Estado
São Paulo
Vou à gráfica às 20h30. Foi essa a senha passada no dia 4 de novembro de 1969 por um informante do baiano Carlos Marighella na época o homem mais procurado pela polícia política brasileira ao frei Fernando de Brito. A informação chegou às autoridades policiais, que prepararam uma emboscada. E, então, o recado transformou-se numa senha para a morte.
Foi o mais duro golpe sofrido pela luta armada que enfrentou o regime militar. Marighella morreu aos 58 anos e, na época, era acusado pela polícia política de ter sido o responsável por assaltos a bancos, sequestros e prática de guerrilha.
Vinte e oito anos depois, no dia 8 de setembro de 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou um decreto concedendo a indenização de R$ 100 mil a 40 famílias de militantes de esquerda mortos ou desaparecidos nas décadas de 60 e 70, entre eles Marighella e Carlos Lamarca outro chefe da luta armada, também morto em emboscada.
A indenização não é importante, afirma Clara Charf, viúva de Marighella e ex-militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN). O que vale é não deixar a memória de quem lutou a vida toda pela liberdade desaparecer. O filho de Marighella, Carlos Augusto, ajudou a montar o processo que foi apresentado à Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos. A força de meu pai deu ânimo à família para fazer um grande esforço e recuperar a memória de Marighella. Lutamos muito para desmentir todas as versões de seus inimigos. Sempre poderá se buscar em Carlos Marighella uma força para lutar. Ele passou a vida toda acreditando na liberdade e na democracia. Os seus assassinos estão sendo cada vez mais esquecidos, enquanto ele é cada vez mais lembrado.
Até hoje permanecem as discussões sobre como os homens do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) conseguiram a informação sobre o encontro fatal. A versão mais aceita é a de que os frades dominicanos Yves Amaral Lesbaupin e Fernando de Brito tiveram suas conversas telefônicas grampeadas após a polícia ter encontrado o número de seus telefones no talão de cheques de Paulo de Tarso Venceslau, preso por participar do sequestro do embaixador norte-americano, Charles Elbrick. Com isso, a polícia conseguiu descobrir que eles teriam um encontro com Marighella. Presos e torturados, os dois revelaram onde seria o encontro na Alameda Casa Branca, em São Paulo.
Os frades foram forçados a seguir juntos ao local do encontro, a bordo de um fusca azul. A rua estava cercada por 44 policiais escondidos, sob as ordens do delegado Sérgio Paranhos Fleury, e, quando o chefe da luta armada chegou, o tiroteio começou. Marighella ainda tentou abrir uma pasta onde levava uma arma, mas foi tudo rápido, e ele caiu morto.





