Washington, 17 (AE) - Negociar a paz com o governo é uma arte tão antiga para as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) quanto guerrear contra o Estado. Em 1988, o grupo guerrilheiro tinha o mesmo líder: o veterano Manuel Marulanda, mais conhecido como Tirofijo (tiro certeiro).
Há 11 anos, o hoje septuagenário Tirofijo já tinha quatro décadas de experiência em luta armada. Mas também mantinha uma "linha vermelha" (contato direto por rádio) com Rafael Pardo Rueda - o assessor presidencial para a paz.
E cada manhã os dois mantinham um diálogo, digno de qualquer obra de realismo mágico do escritor Gabriel García Márquez.
Maior das sete guerrilhas - que nos anos 80 mobilizavam 15 mil homens e disputavam sua cota de violência com 140 grupos paralmilitares e esquadrões da morte, contratados por latifundiários e narcotraficantes -, as Farc chegaram a montar seu partido político de esquerda, a União Patriótica (UP).
Enquanto alguns de seus 7 mil guerrilheiros lutavam por votos, outros negociavam com o governo e outros ainda mantinham a tradição de lutar contra uma democracia em vigor ha três décadas.
Em 1988, Marulanda negociava, de seu acampamento em La Uribe (a cinco dias de caminhada, por penhascos), com Pardo Rueda (que ocupava um gabinete no palácio presidencial de Narino).
Pardo Rueda perguntava se as Farc tinham colocado uma bomba num local, invadido o quartel da polícia de determinado município ou realizado um sequestro.
Marulanda respondia que não: suas frentes (grupos de 200 a 500 homens) estavam posicionadas em outras localidades e seu estilo de luta, todos sabem, nunca seria esse.
Por que as Farc continuavam em guerra quando tinham um partido político? E por qual motivo, tendo mantido a luta armada como opção, contariam ao governo onde estavam e o que faziam? Não corriam o risco de serem cercados por tropas do governo?
Não, explicou Pardo Rueda, porque Marulanda nem sempre contava a verdade. E se ele mentia, por que o governo da Colômbia continuava mantendo contato com ele e perguntando o que fazia? "Porque temos um acordo e queremos conseguir a paz", explicou Rueda, na época.
Onze anos depois, o governo colombiano espera conseguir o mesmo objetivo.
Só que, dessa vez, a situação é muito pior: em 1988, com toda a violência, o país era uma das poucas democracias do continente e sua economia ia de vento em popa.
Hoje os investidores estão fugindo. E se as Farc e os cartéis se dissolverem, como seria o esperado em qualquer Estado normal, o número de desempregados será enorme.

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