Há cem anos, no dia 5 de novembro, nascia um dos sacerdotes mais carismáticos que o País - e, principalmente, o Nordeste - conheceu. Frei Damião DiBozzano pregava à ‘‘moda antiga’’, ignorava as mudanças nas encíclicas e determinações doutrinárias proclamadas pelo Vaticano, que pretendia que os padres tivessem comportamento contemporâneo, mais próximo da realidade e dos problemas da sociedade.
Conservador, fiel aos princípios da Igreja Católica, peregrinou durante 66 anos pelo Nordeste, levando palavras, bênçãos e receitas de salvação. É considerado pelos fiéis como sucessor do padre Cícero, outra figura lendária, também conhecido por suas pregações e que mantém a fama de milagroso até hoje.
Os fiéis atribuem a frei Damião centenas de milagres, como a cura de doenças graves e a conversão de pecadores. Há quem diga, até, que ele fazia chover no sertão em épocas de seca. O mais impressionante da galeria de lendas, entretanto, eram os milagres como forma de castigo, quando ele ‘‘decretava’’ a morte súbita ou a ‘‘transformação de pessoas em animais’’.
Quando lhe perguntavam se histórias como essa eram verdadeiras, o missionário sempre negava tais poderes. E negava, também, sua condição de santo, atribuindo as lendas à fé, à devoção e à ignorância de um povo sofrido e humilde. Para ele, as graças eram alcançadas pelo merecimento e oração.
Membro da Ordem dos Capuchinhos Franciscanos, frei Damião nasceu na cidade de Bozzano, região Toscana, na Itália, em 5 de novembro de 1898. Batizado como Pio Gianotti, mudou seu nome quando foi ordenado sacerdote, em 1923. Formou-se em Teologia, Filosofia e Direito Canônico pela Universidade Gregoriana de Roma (Itália). Em 1931, foi enviado a Recife (PE), para atuar como missionário. Lá, foi professor e diretor do curso de Filosofia e Teologia durante nove anos. Desde o início, chamou a atencão dos humildes moradores dos sertões pernambucanos, com suas pregações carregadas com sotaque italiano.
Com seus sermões apocalípticos, de conteúdo moralista e conservador, frei Damião atraía multidões em romarias. Foi até acusado por alguns bispos de ‘‘fanatizar o povo’’ e proibido de fazer pregações em algumas dioceses. Essa proibição gerou polêmica, envolvendo não só a Igreja, mas também políticos e populares, e não prevaleceu por muito tempo.
Adversário feroz do divórcio, costumava dizer: ‘‘O matrimônio só é quebrado por morte, quem deixar o casamento para se casar com outro no civil estará no inferno de cabeça para baixo’’. Era contra a bebida, a dança e a minissaia. ‘‘A minissaia não presta, é uma rede de que se serve o demônio para pegar os homens. E muitos deles perdem a cabeça por causa dessas modas exageradas’’, declarava.
Sobre as pílulas anticoncepcionais, dizia: ‘‘A pílula não é boa. Deus não gosta. Para evitardes filhos, podeis apenas não usar dos direitos matrimoniais. E podeis fazer isso pela vida inteira, de comum acordo com vossos maridos’’. A punição para quem desobedecesse às ordens religiosas era ‘‘o inferno com fogo e o diabo’’.
Baixinho, atarracado, com sérios problemas de saúde, principalmente na coluna vertebral que o deixou corcunda, sempre vestido com uma batina marrom e carregando um crucifixo preso na cintura, frei Damião seguiu com sua missão religiosa até sua morte em maio de 1997. Internado com problemas respiratórios, sofreu um derrame e ficou em coma até falecer. Seu enterro foi acompanhado por cerca de 300 mil pessoas.
A influência do frei não foi exercida apenas sobre o povo ignorante e pobre, mas também sobre governantes e políticos influentes. Em 1989, frei Damião subiu no palanque do então candidato Fernando Collor de Mello para apoiá-lo na campanha presidencial. Collor continuou vinculando sua imagem à do frei, mesmo depois de sua morte.
Os devotos de frei Damião, que não têm dúvidas de que ele é um santo e faz milagres, aguardam o processo de beatificacão para que, posteriormente, ele seja canonizado pelo Vaticano. Romarias vindas de várias regiões chegam diariamente ao convento São Félix, no bairro do Piná, no Recife, onde ele viveu muitos anos, e que guarda o túmulo do religioso.

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