Gusmão pede cessar-fogo em Timor Leste
Jacarta, 29 (AE-REUTERS) - O líder dos independentistas de Timor Leste, Xanana Gusmão, pediu hoje (29) o cessar-fogo na ilha, onde foi desatada uma revolta popular após o anúncio feito na quarta-feira pela Indonésia de que poderá conceder a independência ao território depois de 23 anos de um sangrento controle militar. Pelo menos seis pessoas morreram hoje em distúrbios no distrito de Kovalima, sudeste da capital, Dili.
"Acho que a Indonésia deve começar a desarmar a população, as Forças Armadas indonésias devem reduzir suas tropas e, se possível, obter um acordo de cessar-fogo", disse Gusmão a repórteres desde a penitenciária de Cipinang, em Jacarta.
O anúncio intensificou os recentes choques entre as distintas facçäes da população, que é em sua maioria católica. Os independentistas atacaram os unionistas, em geral indonésios emigrados para Timor Leste desde a ocupação, em 1975, e armados pelo governo colonialista.
Gusmão saudou a mudança política da Indonésia, mas destacou que o território precisa de algum tempo para preparar-se para a independência.
"Antes tarde do que nunca", disse ele. "Implicitamente, o governo indonésio está reconhecendo nosso direito à autodeterminação, à independência." O líder independentista também saudou o anúncio de que poderá cumprir o restante de sua pena de 20 anos de prisão, que ele começou a cumprir em 1993, em uma casa.
O assessor para assuntos externos do presidente B. J. Habibie, Dewi Fortuna Anwar, disse hoje à imprensa que Timor Leste poderá ser independente em um ou dois anos se o novo Parlamento (que será formado após as previstas eleiçäes de 7 de junho) aprovar a medida. Contudo, Fortuna esclareceu que a indendência só será debatida se os timorenses rejeitarem a proposta de ampla autonomia apresentada por Jacarta.
Representantes da Indonésia e de Portugal iniciaram na quinta-feira uma rodada de negociaçäes na sede das Naçäes Unidas, em Nova York, para discutir sobre o futuro de Timor Leste. O representante especial da ONU, Jamsheed Marker, disse à imprensa que conversou com a delegação indonésia sobre o anúncio de Jacarta, mas não recebeu propostas formais sobre a questão.
Otimista, o representante da ONU declarou: "Acho que percorremos um longo caminho até o processo de autonomia e as duas partes têm agora uma melhor compreensão de suas posiçäes em questäes específicas."
A grande preocupação internacional é a recente onda de violência em Timor Leste, que já levou cerca de 6 mil timorenses a buscar refúgio na Igreja Católica de Suai, 100 quilômetros da capital, Dili. "Está próximo um banho de sangue, é o prenúncio de uma guerra civil", disse um funcionário do Centro Internacional de Apoio a Timor Leste, com sede em Darwin.
Diversas organizaçäes humanitárias informaram que no último mês vários povoados próximos a Suai foram atacados por grupos de civis armados, que perseguem os suspeitos de ser favoráveis à independência. Mais de 20 pessoas foram mortas.
"Jacarta está armando uma bomba-relógio" em Timor Leste, disse um membro da resistência timorense na Austrália. Segundo ele, o Exército indonésio, que dispäe de 15 mil soldados em Timor Leste, se dedica a treinar e armar civis partidários da integração "para proteger-se do terror independentista", ao mesmo tempo em que manifesta-se "a favor da independência".
De acordo com informaçäes do jornalista John Martinkus, do jornal Sydney Morning Herald, a situação é crítica em Suai. Não há água, remédios, banheiros e comida. Há vários casos de diarréia e problemas respiratórios entre os refugiados, apinhados na igreja e nas escolas da cidade. "As pessoas vivem em pânico. · noite, quando surgem rumores da aproximação das milícias, os homens se armam com paus, pedras e barras de metal e as mulheres correm para proteger seus filhos", conta Martinkus.
O padre de Suai, Francisco Soares, que recebeu permissão dos militares para enterrar três pessoas na vizinha cidade de Galitas, disse que os corpos estavam mutilados. Ele contou que uma mulher grávida tinha um ferimento à bala na cabeça e sua barriga havia sido aberta com uma faca. Segundo testemunhas, os milicianos invadiram as casas da mulher e dos dois homens, mataram-nos e continuaram a atirar aleatóriamente por mais de uma hora, enquanto os moradores fugiam apavorados.





