Guia busca ética no atendimento
Londrina - Para a socióloga Miryam Mastrella, pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis) e supervisora da pesquisa que deu origem ao guia "Aspectos éticos do atendimento ao aborto legal: perguntas e respostas", a maior dificuldade em relação ao aborto legal no País é o desconhecimento diante de uma gravidez resultante de violência sexual. "Muitas mulheres não conhecem que possuem as opções de interromper a gravidez ou de levá-la adiante, podendo ficar com a criança ou colocá-la para adoção. Há também a falta de divulgação dos serviços referenciados pelo Ministério da Saúde para o aborto legal, o que leva mulheres que não desejam prosseguir com a gravidez a chegarem aos serviços já em idade gestacional avançada, inviabilizando a opção pelo aborto", afirma Miryam.
Além da melhor divulgação dos serviços que são referência no País, a socióloga defende a ampliação da quantidade destes serviços. Segundo ela, o Anis está fazendo um censo sobre os serviços de aborto legal no país e constatou que dos pouco mais de 60 listados, menos de 50 realmente realizam o aborto nos casos previstos em lei. As pesquisas do Instituto também apuraram que entre os profissionais médicos, são poucos os que se dispõem a atuar nos serviços de aborto legal. "Por isso aqueles que se manifestam contrariamente ao aborto previsto em lei não devem fazer parte destas equipes, já que o atendimento deve ser pautado pela qualidade, pelo respeito à diversidade e à autonomia das mulheres e não por crenças individuais."
Segundo a pesquisadora, a ideia de elaborar o guia surgiu após a realização de uma pesquisa em um serviço de referência para o aborto legal. "A pesquisa nos possibilitou conhecer um pouco mais sobre o processo de negociação moral que se estabelece entre a mulher em busca de assistência e a equipe de saúde responsável por esse atendimento, trazendo à tona algumas das dificuldades e obstáculos vivenciadas tanto pelos profissionais de saúde como pelas mulheres que buscam o serviço. Imaginamos que essas dificuldades, inseguranças e dúvidas poderiam ser as mesmas enfrentadas por outras equipes. Foi da preocupação com a ética no atendimento, visando cuidar das mulheres e dos profissionais que nasceu esse guia." Miryam afirma que o documento divulgado no formato digital tem sido utilizado por profissionais que, diante de situações delicadas e emblemáticas, recorrem a ele para a discussão dos casos em equipe. (S.L.)





