Paris, 02 (AE) - A derrota de Guga e a vitória de Meligeni constituíram as duas novas surpresas de hoje do Torneio de Roland Garros. O dia não começou bem para Guga. A greve surpresa dos transportes coletivos de Paris paralisando praticamente todo o sistema de ônibus e metrô, impediu que o público chegasse a tempo a quadra central do Roland Garros. A morte de um agente do metrô, assassinado na véspera, deflagrou o movimento grevista que se espalhou muito rapidamente.
Quando Guga começou a jogar, só um terço das arquibancadas da quadra central encontrava-se ocupada pelo público e a medida que os torcedores chegavam se surpreendiam com o resultado desfavorável ao brasileiro. A cidade esteve muito nervosa com a greve inesperada; os congestionamentos atingiram quase 300 quilômetros de extensão e alguns jornalistas foram obrigados a atravessar a cidade de patins, para chegar a Roland Garros.
"Allez Guga", gritavam alguns jovens torcedores franceses, agitando seus bonés verde-amarelo, revelando que a torcida havia sido conquistada pelo tenista brasileiro, mas que hoje em nenhum momento chegou a ameaçar a muralha ucraniana, Andrei Medvedev, soberbo no controle de seus nervos. Desde o início constatou-se uma certa preocupação da família Kuerten que acabou em lágrimas. Num dos camarotes, o empresário Almeida Braga e sua família, presença constante no Roland Garros, amigo de Guga e Meligeni como em outros tempo foi amigo de Airton Senna, não escondia uma certa preocupação com a dificuldade de Kuerten ajustar seu jogo. Também na cabine de imprensa, o jornalista Armando Nogueira, grande articulista de futebol, mas igualmente especialista de tênis, desde o começo percebeu que hoje não era o dia de Guga.
Só quando o tenista brasileiro disputava o terceiro set, já perdendo por dois a zero, a torcida de Guga no Roland Garros, constituída de franceses e brasileiros, conseguiu chegar e lotar as arquibancadas desse templo do tênis mundial, como se inconscientemente ela estivesse chegando para assistir a segunda semifinal entre o espanhol Alex Corretja e o brasileiro Fernando Meligeni, alvo de um comentário do jornal esportivo de referencia, L" Equipe: "Se Meligeni só tem pele e ossos, não deixa de ser um formidável lutador que compensa amplamente com seu coração a ausência de alguns quilos".
Aos poucos o público compreendeu que nada dava certo para Guga diante de um adversário que jogava um tênis quase perfeito. A torcida francesa insistia com alguns gritos esporádicos de "Allez Guga", enquanto na porta do Roland Garros, os cambistas também perceberam que a derrota seria rápida, baixando drasticamente os preços dos ingressos, surpreendendo os torcedores que penalizados pela greve chegavam a pé, de bicicleta, patins, na espectativa de uma disputa que poderia durar até três horas. Antes da partida, um lugar bem localizado na central estava sendo vendido por 250 dólares, mas uma hora depois de iniciado o jogo, já se encontrava ingresso para a central pela metade do preço.
Guga deixou a quadra após duas horas e três minutos com a central repleta, um público caloroso que chegou atrasado, ideal para aplaudir uma vitória e não para presenciar as discretas lágrimas de Vanessa, sua namorada. Poucos minutos depois Meligeni e Corretja ingressaram na mesma quadra e poucos apostavam suas fichas no "outro brasileiro" como era chamado. Poucos acreditavam que o franzino Meligeni iria arrasar em três sets seu adversário espanhol.
Se Guga não mostrou ao público o seu tênis costumeiro, simples e descontraído, esse espírito parece ter se transferido para Meligeni que, negligenciado pela imprensa durante toda a semana, acabou conquistando rapidamente o publico de Roland Garros com um tênis alegre, presente em todos as partes da quadra e sem dar qualquer chance de recuperação a Corretja. Agora, Guga deixa a Meligeni a difícil tarefa de vingá-lo contra Andrei Medvedev. O público do Roland Garros terá 24 horas para adotar "esse outro brasileiro" como já havia adotado Guga, a exemplo do jornal LEquipe que tem chamado "o outro brasileiro" de "Meli-gênio".

mockup