Guga dá a volta por cima
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sexta-feira, 21 de maio de 1999
Por Chiquinho Leite Moreira 
Paris, 21 (AE) - Número 1 do mundo na atual temporada, tenista que mais títulos importantes conquistou, com os troféus de Montecarlo e Roma, o melhor retrospecto em vitórias em jogos disputados em quadras de saibro, e tenista que mais prêmios ganhou no ano, o brasileiro Gustavo Kuerten chega a Roland Garros com um status de respeito. Desta vez, antes de começar a disputa do torneio é tido como um dos principais favoritos. Ninguém mais coloca em dúvida sua capacidade técnica e não enfrenta o tormento da defesa de título, que tanto perturbou sua vida e tranquilidade no ano passado. Hoje, Guga, como gosta de ser chamado, diz com orgulho "dei a volta por cima." Em Paris, Gustavo "Guga" Kuerten falou com sinceridade e de seu atual momento em uma entrevista exclusiva ao Estado. Encheu a boca ao relatar algumas de suas principais conquistas fora da quadra, como passar a acreditar em seu jogo, deixar de se sentir um derrotado e não se incomoda mais com críticas a seu estilo arrojado e de riscos. Está convencido de estar no caminho certo e aprendeu a ter paciência para esperar pelo melhor momento de comemorar as boas coisas da carreira. O amadurecimento veio naturalmente. Hoje parece ver mais longe e apenas alguns metros à frente de sua raquete. Teve duras lições, como na derrota do ano passado, na segunda rodada para o russo Marat Safin. Nàquele momento vivia uma das fases mais tensas de sua vida profissional com a defesa do título de Roland Garros e uma série de envolvimentos, como a recente recente decepção da Copa Davis, que o levou a tomar a decisão de forçar a mudança de treinador. Resolveu colocar sua carreira à frente e seu profissionalismo, deixando de ser o bonzinho e só dizer sim. Para atingir o atual amadurecimento, Gustavo Kuerten sofreu. Reconhece que não foi nada fácil encarar uma derrota na segunda rodada de Roland Garros. Por isso, na noite após o jogo perambulou pela cidade de Paris, buscou o apoio de amigos, chorou e o drama foi tão grande, que chegou a pensar que tudo estava acabado. Queria mesmo desistir, abandonar a vida de tenista profissional. O tempo foi o melhor remédio, como admitiu Kuerten. Pensou bem no assunto e confessou: "Não sei mesmo fazer outra coisa, vou ter de continuar no tênis." A paciência foi uma arma para reconquistar a confiança em seu jogo. Dar continuidade a um trabalho longo e dedicado ao lado de seu técnico Larri Passos, já sem contar com interefência de outros, e hoje não tem dúvidas de ter tomado a decisão correta em manter a parceria com Passos, apesar dos conselhos para buscar outras alternativas. Agora, quase careca, cabelo pintado de loiro, namorando a sua paixão desde os tempos de criança em Florianópolis, Gustavo Kuerten celebra um momento especial em sua vida profissional: a de chegar em Roland Garros, um torneio fascinante para ele, com o status de favorito e, o melhor, sem pressão de defesa de título, cobranças e, o melhor, confiante em seu jogo como nunca esteve em toda sua vida. O clima está ameno e tranquilo. Deixou de lado, qualquer coisa que lhe prendesse ao passado. Mudou de hotel. Largou o humilde Mont Blanc e alugou um apartamento próximo a Roland Garros. Levou sua família à Paris, sem receio de esbanjar dinheiro. Colocou sua fortuna nas mãos de profissionais, uma empresa norte-americana que cuida do patrimônio de vários tenistas e gente famosa, e assumiu o status de estrela, tirando proveito disso para impor respeito e conquistar vitórias. Não é mais só o menino alegre, o surfistas descontraído. É um tenista esperto, que sabe vencer, tirar proveito de situações e também aproveitar as conquistas, com maior conforto e tranquilidade. Este novo Gustavo Kuerten está em Paris, com chances, de conquistar pela segunda vez na carreira o título de Roland Garros, o mais cobiçado dos troféus do Grand Slam.


