‘Guerrilheiro cultural’ dá aula
Com memória de cachorro vingativo e eloquência de trovador, o escritor Ariano Suassuna (foto) falou em alto e bom português no Congresso Mundial dos Jornalistas. Ele ocupa o cargo de secretário de Cultura em Pernambuco. A gestão de Suassuna é marcada pela originalidade: ele dissemina a cultura popular do Nordeste em aulas-espetáculo. O professor? Ele mesmo.
Na aula, Suassuna contou algumas boas histórias que envolvem o trabalho do jornalismo. Recordou, por exemplo, o texto do Lidador, jornal da cidade pernambucana de Vitória do Santo Antão, publicado no dia da derrota alemã na Segunda Guerra Mundial. O jornal dizia o seguinte: ‘‘Tivesse o sr. Adolf Hitler lido as advertências que aqui publicamos, e seu fim poderia ser diferente!’
O autor do livro A Pedra do Reino às vezes fica bravo com certas perguntas que repórteres lhe fazem. ‘‘Outro dia, um jornalista perguntou o que eu achava da Aids. Respondi que gosto mais de Dostoiévski. É claro: sou escritor!’ O trabalho de alguns jornalistas, para Suassuna, chega a lembrar a figura do péssimo contador de histórias. Aquele sujeito que estava numa roda de amigos e perguntou:
- Alguém ouviu um tiro?
- Não.
- Por falar em tiro...
Suassuna é um defensor incansável do instrumento de trabalho dos jornalistas brasileiros: a língua portuguesa. Ele não se conforma em comparecer a workshops - no máximo vai a reuniões de trabalho. ‘‘Onde já se viu fazer coffee break no país do café?’, reclama. ‘‘Eu sou um homem sério!’
Certo dia Suassuna foi à casa de uma senhora que, segundo ele, dividia a humanidade em duas categorias: os que foram ou não à Disneylândia. Isso ele não aceita. ‘‘Para mim, a Disneylândia é um monumento à imbecilidade humana. Meu trabalho na Secretaria de Cultura é oposto a esse estado de coisas. Faço aqui uma alavanca para criar o espaço da cultura brasileira.’
Considerado ‘‘guerrilheiro cultural’’, Suassuna tem grande popularidade em Pernambuco, mas não está livre de polêmicas e críticas ásperas. Na luta por recuperar valores da cultura pernambucana e nordestina, tem sido acusado de xenofobia. ‘‘Mas eu não tenho horror ao estrangeiro, não. Eu só não gosto do ruim, seja estrangeiro ou brasileiro’’, garante. O exemplo vem em seguida. No balé ‘‘A Demanda do Santo Graal’’, exibido logo após sua aula-espetáculo, ouve-se um quarteto de cordas de Beethoven. Meio parecido com o frevo.

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