Rio, 20 (AE) - A guerra entre traficantes das Favelas Gogó da Ema, em Costa Barros, e do Chapadão, em Guadalupe, as duas na zona norte do Rio, agravou o clima de insegurança e provocou a fuga de dezenas de moradores da primeira. Eles abandonaram os barracos temendo novos tiroteios, em decorrência da ameaça de uma nova invasão do morro, feita pela quadrilha de traficantes da Favela do Chapadão.
O estopim do conflito foi a morte de cinco pessoas, na madrugada de segunda-feira (18). Elas seriam ligadas ao tráfico do Gogó da Ema e teriam sido assassinadas por ciminosos do Morro do Chapadão. Além de matar os rivais, o bando decapitou o cabo da Polícia Militar Marco Antônio Balduíno de Oliveira, de 31 anos, quando o militar chegava em sua casa, na favela. Hoje, nenhuma das cinco escolas da região abriram as portas e o comércio só funcionou sob escolta policial.
O confronto de segunda-feira vitimou um dos chefes do tráfico do Gogó da Ema, Iran Félix Garcia, além de quatro outros integrantes do bando.
Segundo a polícia, a família de Garcia foi avisada pelos bandidos do Chapadão que, se não deixasse a favela, todos seriam mortos na noite de hoje, quando eles invadiriam o Gogó da Ema para tomar os pontos de venda de drogas local. Segundo a polícia, a família deixou sua casa no início da manhã de hoje, assim como dezenas de outros moradores.
Durante todo o dia, a cena mais comum foi a de moradores carregando mesas, cadeiras e camas morro abaixo.
Como as Polícias Militar e Civil estiveram no Gogó da Ema durante a manhã e a tarde de hoje, o comércio funcionou normalmente. O movimento caiu por volta das 15 horas, quando os homens do 14.º Batalhão da PM (Bangu) e da 31ª Delegacia Policial (Ricardo de Albuquerque) deixaram o local, prometendo voltar à noite. A presença policial não tranquilizou comerciantes e moradores. "A polícia não garante nada a ninguém; quando a situação aperta, a gente só pode contar com as próprias pernas para sair correndo", disse um ambulante. O comandante do 14.º BPM, coronel Hamilton Leandro Saldanha, disse que a PM estaria no morro "dia e noite", a fim de permitir que "todos pudessem retornar às suas casas com segurança".
O dono de um minimercado contou que, durante o dia, sente-se seguro, mas, quando começa a escurecer, ele fecha as portas.
"Nem adianta manter a loja aberta; as ruas ficam desertas porque está todo mundo dentro de casa e não tenho para quem vender", explicou o comerciante, que admitiu que, por causa da violência, deixa sua casa todas as noites. "Tenho muito medo; não durmo aqui de jeito nenhum."
Uma mulher, que mora há muitos anos no Gogó da Ema, disse que não iria deixar sua casa "porque não havia recebido ordem de ninguém do movimento (pessoas envolvidas com o tráfico)". "Aqui, nunca teve esse problema de guerra; tudo começou quando criaram o Morro do Chapadão, há uns três anos", contou um outro morador. Com medo de represálias, nenhum morador quis se identificar.
No Chapadão, hoje também foi um dia incomum, mas por motivos diferentes. Um dos principais gerentes de droga da favela, conhecido como "Bad Boy", foi morto no domingo (17) num confronto com a PM no Morro do Marítimo, em Niterói, no Grande Rio. Segundo um policial, "Bad Boy" teria confessado antes de morrer que participara da invasão ao Gogó da Ema. Por causa da morte dele, a quadrilha do Chapadão decretou luto no dia de hoje, obrigando comerciantes e diretores de escolas da área a não abrir os estabelecimentos.
O governador Anthony Garotinho (PDT) disse que desconhecia o fato de os moradores estarem abandonando as suas casas no Gogó da Ema.

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