GUERRA DOS SEXOS - Depois de 28 anos, a chefia geral
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domingo, 23 de novembro de 2003
Karla Matida<br> Reportagem Local 
Meninas usam rosa, meninos, azul. Mocinhas vão para os cursos de magistério, garotos para engenharia. Durante muitos anos, tudo sempre foi muito específico para homens e mulheres. Das cores das roupas às profissões, já foi mais difícil querer cruzar as fronteiras. Mas em pleno terceiro milênio, o fato de uma mulher assumir a chefia geral de um órgão nacional de pesquisa, ainda causa certa surpresa.
Ao assumir o cargo de chefe-geral da Embrapa Soja, no início de outubro deste ano, a agrônoma capixaba Vania Castiglioni também entrou para a história como a primeira mulher no posto nos 28 anos do órgão com sede em Londrina. Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) desde 1989, Vania nunca se imaginou em cargos de chefia e achava que seu lugar mesmo era nos laboratórios de pesquisa.
Mas em 1997, um convite para assumir a chefia de administração (na hierarquia da empresa, logo abaixo da chefia geral, estão os três chefes, um de administração, outro de comunicação e negócios e o terceiro, de pesquisa e desenvolvimento), a fez rever seus conceitos. ''Relutei em aceitar, mas o então chefe-geral insistiu na minha característica que é a força do trabalho em equipe'', lembra Vania. Não por acaso, foi o apoio dos colegas de trabalho que a levou a se candidatar para o novo cargo.
''A Embrapa não faz distinção de sexos e o processo seletivo para os cargos de chefia envolve análise do currículo, do plano de trabalho para os quatro anos de mandato e o perfil do candidato'', explica a chefe-geral. A questão é que o número de mulheres pesquisadoras é que é pequeno em relação aos colegas homens. Dos 73 pesquisadores da unidade londrinense, apenas 10 são mulheres, contabilizando 14% do total.
''Vai chegar um ponto em que esse número vai se igualar. As coisas estão mudando e esse mix de homens e mulheres é fundamental para equilíbrio do mundo'', afirma Vania, que logo após concluir o curso de pós-graduação teve que ouvir sete ''nãos'' de empresas que não estavam interessadas em pesquisadoras. ''Ainda havia muita resistência naquela época'', lembra a agrônoma, que começou a procurar emprego em meados dos anos 80.
Foi em 1987 que saiu do interior do Espírito Santo para integrar o corpo de docentos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), na disciplina de Melhoramento de Plantas do Departamento de Agronomia. ''Quem é de fora percebe logo como Londrina é hospitaleira'', garante a capixaba, que gosta de contar como foi bem recebida logo no primeiro dia na cidade.
''Fui visitar o único casal que conhecia por aqui, mas acabei indo parar numa chácara no outro lado da cidade'', lembra. Conversa vai, conversa vem, Vania fez logo amizades e conseguiu chegar ao destino certo, depois delgumas caronas simpáticas. ''Quando eu contei pro pessoal do Espírito Santo, ninguém acreditou'', sorri. ''Só saio daqui por um motivo de força maior mesmo''.
O carinho pela cidade que a recebeu não foi esquecido nem mesmo na hora de fazer os planos para seus quatro anos de chefia. ''Temos planos de participar mais da comunidade e já colocamos representantes nossos em várias comissões de projetos da cidade'', explica Vania. Responsabilidade social também é algo sério para a nova chefe da Embrapa Soja. ''Vamos ampliar os projetos'', avisa.
Envolver-se com as questões da cidade, mas sem se esquecer do Brasil e do mundo. Referência internacional quando o assunto é pesquisa de soja, a unidade londrinense é o maior centro mundial no desenvolvimento de pesquisas para o grão.
Mas nem tudo foi sempre soja para Vania Castiglioni, que ao entrar para a Embrapa coordenava os trabalhos com girassol. A equipe de Vania foi responsável pelas pesquisas do uso ornamental do girassol, que acabou ganhando diferentes cores e foi estrela de uma exposição artística no ano passado. ''Agora só participo das reuniões estratégicas'', explica.
Nesses primeiros dias de cargo novo, Vania percebeu que os dias de 24 horas ficaram mais curtos para dar conta de tantas responsabilidades. E pelo jeito não é só porque ela está no começo do mandato. ''Tenho a impressão de que vai ser assim nos próximos quatro anos'', conforma-se.
''Estamos envolvidos com a soja em todo os estados do Brasil'', explica Vania, que esteve recentemente em Macapá, onde debateu a questão da soja na Amazônia. ''Faz tempo que já se traçam planos e estratégias para a expansão'', explica. Um dos primeiros passos é rever os conceitos de que a soja é negócio apenas para grandes produtores, segundo a agrônoma.
Claro que hoje em dia é impossível falar em soja e não se lembrar dos transgênicos. ''É lógico que a sociedade tem que se envolver com essas questões'', avisa. ''Sou a favor da pesquisa como forma de contribuição. Mas isso tem que ser feito de forma responsável, sem deixar de lado a biosegurança. Investir em ciência e tecnologia é uma questão de soberania'', ensina a pesquisadora.
Desde 1997, a Embrapa Soja desenvolve projetos de pesquisa com transgênicos em parceria com empresas privadas. ''Seguimos a legislação e já tivemos frentes de trabalho com impacto positivo para as pesquisas'', completa Vania. Na mesma sala, o retrato oficial do presidente Lula sorri num dos cantos. Será que demora muito para uma mulher assumir a presidência do País?


