Bogotá, 23 (AE) - O governo colombiano parecia a caminho de uma crise política nesta sexta-feira (23), com uma guerra de palavras entre o protagonista do processo de paz, Victor G. Ricardo, representante do presidente Andrés Pastrana nas negociações com a guerrilha, e o protagonista do conflito armado
o general Fernando Tapias, comandante das Forças Armadas.
Por trás desse confronto verbal estão as contradições entre as duas vias paralelas percorridas pelo governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc): negociações de paz, de um lado, em meio ao acirramento do conflito armado, de outro.
Em discurso de abertura do 1° Fórum Iberoamericano sobre Reforma Agrária e Paz, Victor G. fez uma apaixonada defesa das negociações com a guerrilha e atacou "os inimigos da paz", arrematando: "A idéia da paz já criou raízes no país, com o apoio da comunidade internacional, e não vamos permitir que acabem com essa pujança nacional."
O general Tapias reagiu ainda pela manhã, exigindo que o assessor presidencial "explique quem são os inimigos da paz". O comandante também assinalou que "as Farc não têm o direito de impor a pena de morte" na Colômbia, em referência a uma execução de 11 pessoas na "zona de distensão controlada pela guerrilha.
As execuções, de supostos "agentes da inteligência militar infiltrados" na área, foram assumidas publicamente por ninguém menos que o negociante-chefe das Farc, Raúl Reyes, que Victor G. foi procurar na quinta-feira, na região controlada pela guerrilha, para tentar reiniciar o processo de paz.
A dissonância entre Tapias e Victor G. tem se tornado cada dia mais gritante, com o comandante chamando os guerrilheiros de "criminosos" e o assessor presidencial declarando, como fez à Agência Estado, na quinta, que confia que a guerrilha vá "honrar sua palavra".
No discurso de hoje, Victor G. voltou a salientar a relação entre os problemas sociais do país e o conflito armado. "O norte da conciliação é uma política agrária integral, para que cheguem a todos os benefícios do desenvolvimento", pontuou, aos participantes do Fórum.
O ministro da Reforma Agrária do Brasil, Raul Jungmann, apresentou a experiência brasileira com o Banco da Terra, sistema de créditos para financiar a compra e a produção de pequenas propriedades, alternativo ao modelo tradicional de desapropriação e destinado a evitar os conflitos de terrras que acompanham esse modelo.
Falando à AE, Junqmann fez uma comparação entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e a guerrilha. "O recurso ao conflito armado ocorre em sociedade em que o peso da agricultura é muito forte, não houve a industrialização e coloca-se ainda o problema da posse da terra", disse o ministro.
"O Brasil é altamente industrializado e urbanizado, a sociedade cresceu para fora do rural e por isso temos lá um movimento de massa, não uma guerrilha."

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