Guerra de Kosovo cria confusão entre esquerda e direita Do correspondente GILLES LAPOUGE
Paris, 13 (AE) - Os bombardeios da OTAN contra a Sérvia tiveram o efeito de um um terremoto sobre a paisagem francesa. Ainda ontem, esta paisagem era clara: a direita estava à direita. A esquerda estava à esquerda. Hoje, tudo está virado de cabeça para baixo. É realizado um casamento perverso: entre os defensores da OTAN encontramos gente da esquerda.
Entre os inimigos da Aliança, há gente da direita.
Os jornais estão traindo esta desarticulação. Nos primeiros dias da intervenção, o jornal de esquerda "Libération" estava horrorizado com os ataques. Depois, com o espetáculo dos refugiados ou das atrocidades dos soldados sérvios, o mesmo jornal passou maçiçamente para o campo dos belicistas.
Ao contrário, o grande jornal da burguesia, "Le Figaro", reflete todas as cores do espectro: o chefe de redação, Franz-Olivier Giesbert, é ferozmente contrário à OTAN. Mas os editorialistas se distribuem entre os partidários e os inimigos da Aliança. "Le Monde", jornal de esquerda, é claramente intervencionista.
A "intelligentsia" lançou-se imediatamente à guerra, em "uniforme de batalha", como uma brigada de pára-quedistas, ou antes, como duas brigadas porque os intelectuais , desta vez pelo menos, não defendem todos a mesma opinião. Isso representa uma mudança: tradicionalmente, os intelectuais tinham uma vantagem: todos tinham sempre a mesma opinião - "de esquerda" . Mas, no caso de Kosovo, a unanimidade se rompeu. São sempre de esquerda, mas uns são favoráveis à guerra e outros são a favor da paz. Há oito dias, esses "bons camaradas" de há 30 anos se degladiam em nome dos sérvios ou dos kosovares.
Entre os partidários da OTAN, Bernard-Henry Lévy, Alain Finkelkraut, Pascal Bruckner, Jean-Claude Guillebaud. E Philippe Sollers? Desgraça!
Suspense! Angústia! Ninguém sabia a posição de Philippe Sollers. Havia preocupação: será que ele estava sofrendo? Mas hoje finalmente o véu se abriu em face do mundo: Sollers está ao lado das vítimas, é a favor dos kosovares.
Mas um novo grupo se levanta: outros intelectuais, igualmente de esquerda, mas contrários à OTAN. Vê-se entre eles Pierre Bourdieu, sociólogo e professor do Collge de France, e Régis Debray, este último liderando um pelotão de amigos, como Max Gallo, que poderíamos chamar de "soberanistas", ou nacionalistas" ou "neogaullistas" e que não admitem que neste assunto, em que tudo é organizado pelos Estados Unidos, os europeus, com a França à frente, se limitem - dizem eles - a seguir Bill Clinton.
Os intelectuais de extrema direita, também eles hostis aos Estados Unidos, tentaram se aproveitar desta confusão: o reitor da "Nova Direita", Alain de Benoist, patrocinou um abaixo-assinado contra a OTAN e incluiu, entre os signatários, algumas "vedettes" da esquerda: Max Gallo, Gilles Perrault e até o "abbé Pierre" (santo personagem devotado aos pobres). No último momento, a armadilha foi denunciada, e os homens de esquerda retiraram sua assinatura. Mas, durante algum tempo, a extrema-direita tornou-se um elemento de aglutinação da extrema-esquerda nacionalista.
Uma última reação merece ser citada: a de Jean-Marie le Pen e de seu partido xenófobo e reacionário, a " Frente Nacional". Naturalmente, Le Pen é contra a OTAN, contra os kosovares e a favor dos sérvios. Nada de novo! Mas um dos argumentos de Le Pen merece ser lembrado: "Vejam Kosovo!", diz ele em poucas palavras. "Outrora, na Idade Média, Kosovo era um bravo país, cheio de valorosos cristãos, bem brancos. Depois, com o passar dos anos (e com a ajuda do Império turco), Kosovo tornou-se um país muçulmano que lançou fora todos os cristãos brancos e sérvios. Esta lição deveria ser aprendida pela França de 1999: nós acolhemos em nosso solo sagrado milhões de negros, de judeus, de árabes, etc.... Um dia, todos esses emigrantes expulsarão os franceses da França, exatamente como os kosovares muçulmanos expulsaram de seu próprio solo os bons cristãos brancos de Milosevic".





