Guerra contra a obesidade infantil
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de novembro de 2004
Antônio Marinho e Simone Intrator<br>Agência Globo 
A novidade para frear a epidemia de obesidade infantil no Brasil combina dois ingredientes: drogas e polêmica. Remédios para aumentar a sensação de saciedade e para impedir a absorção de gordura já estão sendo receitados por alguns médicos a crianças a partir de 12 anos numa tentativa de emagrecer a gorda estatística de 155 milhões de meninos e meninas obesos no mundo (um em cada dez), segundo o último relatório da Força-Tarefa Internacional sobre Obesidade. A decisão gera enorme controvérsia: para alguns especialistas, além de os remédios causarem efeitos colaterais como insônia, alteração do humor e boca seca, prejudicam o crescimento e podem alterar o metabolismo do paciente. Para outros médicos, os quilos a mais na balança geram doenças do coração e diabetes entre outros males graves e são mais prejudiciais na juventude do que as pílulas.
Carolina Carneiro Almeida, de 16 anos, participou de pesquisa pioneira no Brasil, feita pelo Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (Iede), no Rio. Outras duas sobre o tema foram realizadas nos Estados Unidos, uma envolvendo 500 adolescentes. O estudo carioca, apresentado no 64 Encontro Anual da Sociedade de Endocrinologia, em Nova Orleans, e considerado um dos cem melhores entre os 2.500 exibidos, testou em 60 jovens de 14 a 17 anos, com média de cem quilos, a sibutramina (substância do Reductil, usado na pesquisa e financiador do projeto, e do Plenty). Em seis meses, os pacientes ''todos submetidos a ecocardiograma antes e depois da pesquisa, sem que houvesse alterações'' perderam em média quase 13 quilos, enquanto entre os que tomaram o placebo a média não ultrapassou cinco quilos. Carolina perdeu 13 quilos (chegou ao Iede com 86kg e tem 1,68m), mas abandonou o tratamento e voltou a engordar.
''Ela passou a comer mais desde que saiu do programa e é difícil fazer uma dieta específica para ela: somos seis pessoas em casa e os alimentos de regime estão muito caros. Mas não fiquei com medo dos remédios porque foram feitos nela exames mensais. O controle foi rígido e ela se sentiu bem. Quero agora que recomece'', diz a mãe de Carolina, Nanci Almeida, moradora da Penha, Zona Norte do Rio.
Para Amélio de Godoy Matos, professor da PUC-RJ que coordenou a pesquisa carioca, com co-autoria da médica Lucia Carraro, os resultados sugerem que a sibutramina é segura: ''Mas só em casos selecionados, para jovens que não respondem ao tratamento convencional. O grupo que tomou a sibutramina teve seis vezes mais chance de perder 10% do peso inicial do que o grupo que tomou o placebo. E quase a metade do grupo que tomou o remédio perdeu mais de 15% do seu peso inicial. Nenhum dos pacientes que tomou o placebo chegou perto de emagrecer isso tudo''.
Um outro estudo sobre o uso da sibutramina em adolescentes coordenado pelo psiquiatra Robert Berkowitz, do Weight and Eating Disorders Program of the University of Pennsylvania, foi feito para provar a eficácia e a segurança das drogas. E nos Estados Unidos, o FDA, órgão que administra drogas e alimentos nos EUA, já considera seguro dar o orlistat (Xenical) a jovens, tanto que o liberou a partir dos 12 anos. O endocrinologista Walmir Coutinho, vice-presidente da Federação Latino-Americana de Sociedades de Obesidade, vê prós e contras no uso dos remédios.
''As doenças associadas à obesidade são tão perigosas que é válido usar remédios seguros. Mas pais e médicos devem pesar bem os riscos. Os estudos sobre emagrecimento e uso de remédios com crianças não mostraram prejuízo no crescimento. Mas as maiores pesquisas duraram um ano e o tempo não é suficiente para provar futuros problemas no desenvolvimento''.
O endocrinologista pediatra Luiz Claudio Castro, diretor-secretário da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo (Sbem), repudia as drogas e garante que representam um risco.
''É uma fase da vida em que é mais fácil mudar os hábitos alimentares. Por que não incentivar isso em vez de usar um remédio que pode levar à acomodação de um estilo errado de vida? O orlistat impede a absorção de vitaminas essenciais na fase de crescimento e a sibutramina é um anorexígeno que diminui o apetite e provoca sintomas como boca seca, insônia, alteração do humor'', afirma categoricamente.


