Guaíra resgata história e cultura indígena
Vânia Moreira
De Umuarama
Terra dos índios Guarani, Guaíra (115 km a sudoeste de Umuarama) quer resgatar sua história e a origem dos povos que habitavam a região antes da chegada dos espanhóis há quase 500 anos. A região é um imenso sítio arqueológico, com cemitérios indígenas, ruínas de aldeia e até de uma redução jesuíta, a Ciudad Real Del Guahyrá, na foz do Rio Piquiri, em Terra Roxa (100 km a sudoeste de Umuarama).
Entretanto, a maior parte desse patrimônio histórico já se perdeu ou está abandonada. Não sabemos quase nada sobre os índios que habitaram esta região e precisamos resgatar a história, diz o prefeito Manoel Kuba (PPB), que deu carta branca à Secretaria Municipal de Turismo e Cultura para desenvolver projetos nesta área.
Segundo o diretor de marketing da Secretario de Turismo, José Carlos Luis, já foram encontrados em Guaíra objetos indígenas que podem ter até seis mil anos. Estima-se que cerca de 200 mil índios guarani habitavam a região antes da chegada do homem branco. Algumas peças encontradas estão no museu da cidade, mas são poucas e insuficientes para reconstituir a história dos índios que habitavam a margem e as ilhas do Rio Paraná. Na história brasileira existe poucas referências aos índios e a conquista espanhola da região.
Com a ajuda da Univesidade Paranaense (Unipar), a secretaria de Turismo e Cultura está pesquisando a história da ocupação espanhola e dos índios na região. Vão tentar obter informações na Espanha, principalmente em Sevilha, cidade natal de Melgarejo. Já conseguimos descobrir alguma coisa da saga do colonizador espanhol. Sabemos, por exemplo, que Melgarejo morreu idoso em Santa Fé, na Argentina. Temos esperanças de que levantando a história dos espanhóis, consigamos resgatar também a história dos índios, diz .
O resgate da cultura indígena não se limita a apurar a história. Moradores também estão aprendendo a fazer artesanato indígena. Não se sabe quem teve a idéia, mas a Secretaria de Ação Social a colocou em prática e há um ano e meio está dando aulas de artesanato indígena para os interessados. Atualmente, 17 pessoas de todas as idades estão assistindo as aulas, às segundas, quartas e sextas-feiras.
Os alunos aprendem a fazer cambuxi pote grande usado pelos índios para fermentar bebidas , utensílios usados para guardar cereais, urnas funerárias e outros objetos. Para decorar as peças, são usados os mesmos materiais que os índios usavam; pedra, sabugo, bambu e coco.
A escola já tem cerca de 80 peças prontas. Vinte estão em exposição na Mineropar em Curitiba. A escola também vai expor no Centro Náutico durante os Jogos Indígenas e já tem convite para participar de outras mostras culturais.
Segundo a coordenadora de atividades produtivas da Secretaria de Ação Social, Ana Minel, a escola já revelou alguns talentos, não só em artesanato indígena, mas também em escultura em barro. O desafio, no momento, é reduzir o índice de perdas das peças. Estamos aprendendo com especialistas como selecionar e preparar a argila e outros segredos para evitar que as peças rachem depois de prontas, diz Ana.
O município de Guaíra foi criado dia 14 de novembro de 1951, mas a ocupação da região é muito antiga. Remonta aos primeiros anos do descobrimento do Brasil e às aventuras dos espanhóis e dos padres jesuítas que se embrenhavam matas e rios adentro para conquistar novas terras e catequizar os índios.
O primeiro povoado às margens dos rios Piquiri e Paraná data de 1.556, quando o capitão espanhol Ruy Dias Melgarejo fundou a Ciudad Real Del Guahyrá. A Ciudad Real foi uma das reduções jesuíticas do Sul do Brasil. Em 1632, os portugueses retomaram as terras ocupadas pelos espanhóis. A redução jesuíta de Ciudad Real foi saqueada e destruída.
As ruínas da Ciudad Real estão perdidas no meio de pastagens, mas há projeto para reconstruir a cidade e inclui-la num roteiro turístico das Missões Jesuítas junto com reduções no Rio Grande do Sul e na Argentina. Muitos objetos históricos retirados das ruínas da cidade espanhola estão hoje no Museu de Guaíra. São objetos e artesanato indígenas, algumas peças com quase dois mil anos.
Entre o acervo do museu, instalado no prédio da primeira escola de Guaíra, está a Cruz de Caravaggio, com mais de 400 anos, primeira peça fundida no século XVI como símbolo das Missões. A cruz foi encontrada nas ruínas de Ciudad Real. Depois de muitos anos abandonada, a região começou a ser colonizada em 1.880 pela Companhia Mate Laranjeira, que recebeu do governo concessão para explorar erva mate ao sul de Mato Grosso do Sul. Começava a surgir a cidade de Guaíra.
O nome Guaíra tem origem na língua Guarani. Vem da palavra Kwayrá, cujo significado é esconderijo, local de difícil acesso ou intransponível por causa das Sete Quedas.Região abriga sítio arqueológico com cemitérios, ruínas de aldeia e uma redução jesuíta, a Ciudad Real Del Guahyrá
Fotos Ricardo de AbreuREAPRENDENDOA escola já tem cerca de 80 peças prontas, vinte delas em exposição na Mineropar em, CuritibaOs alunos aprendem a fazer pote (cambuxi) grande usado pelos índios para fermentar bebidas, utensílios usados para guardar cereais, urnas funerárias e outros objetosSecretaria de Ação Social, Ana Minel: revelação de talentos





