Grupos de extermínio ressurgem no Rio
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sexta-feira, 28 de março de 1997
Sílvio Barsetti, da Agência Estado, do Rio 
Arquivo FolhaDesova organizadaHá um cuidado específico para que os homicídios em série não sejam associados ao crime organizado. A primeira medida é abandonar os corpos das vítimas em locais diferentes. Com isso, estaria descaracterizada a chacina e os crimes, isolados, não despertariam o interesse da opinião públicaOs esquadrões da morte ou grupos de extermínio continuam levando pânico à Baixada Fluminense, na periferia do Rio. A execução sumária de cinco rapazes em 20 de fevereiro na cidade de Belford Roxo, na Baixada, mostrou que o Estado do Rio não se livrou da ação desses justiceiros - responsáveis por crimes hediondos em que a frieza e o prazer de matar são seus instrumentos. De acordo com delegados da Baixada, a polícia trabalha com a hipótese de que pelo menos três grupos de extermínio ainda agem na região.
Os casos de homícidios sem explicação aparente e o registro recorde de menores assassinados em 1996 no Estado do Rio - 659 - indicam outros números. A morte de cada menor da Baixada Fluminense valeria de R$ 200 a R$ 500 para esses grupos. O sub-chefe da Polícia Civil do Rio, delegado Paulo Maiato, reconhece a dificuldade de combater os grupos. Esses crimes covardes seguem um círculo vicioso, onde as pessoas temem represálias e por isso não denunciam, declarou.
As novas estratégias dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense têm a intenção de despistar a polícia e tumultuar as investigações. Há um cuidado específico para que os homicídios em série não sejam associados ao crime organizado. A primeira medida é desovar - abandonar os corpos das vítimas - em locais diferentes. Com isso, estaria descaracterizada a chacina e os crimes, isolados, não despertariam o interesse da opinião pública.
Em média, 12 pessoas são encontradas mortas todos os dias no Estado do Rio. A maior parte é enterrada como indigente. Segundo o delegado Luiz Omena, da 52ª Delegacia Policial (Nova Iguaçu, Baixada), uma outra prática vem sendo adotada pelos assassinos. Se há como manter os corpos num lugar aparentemente inacessível, a desova também é feita em dias alternados, explicou.
O submundo do crime na Baixada Fluminense recorre a técnicas sórdidas e repugnantes para esconder os corpos de suas vítimas. Alguns são atirados em rios, córregos ou lagos com um talho profundo entre a barriga e o peito. Dessa forma, a lama e a terra evitam que o corpo seja arrastado pela correnteza ou suba à superfície. Essas ações são feitas sempre à noite e com a utilização de carros roubados, em cujos porta-malas, espaçosos, há como transportar até quatro ou cinco corpos. Estamos agindo e recentemente flagramos e prendemos três criminosos que iam fazer a desova de dois cadáveres em um bairro de Nova Iguaçu, disse Omena.
Nos distritos de Austin e Adrianópolis, em Nova Iguaçu, a ação dos grupos de extermínio ainda é comum, embora com menor intensidade que nos anos 70 e 80. Trechos desertos da Estrada de Adrianópolis são evitados pelos moradores locais após o anoitecer. Árvores e capim alto formam uma densa mata ao redor da estrada, onde veículos com faróis apagados costumam trafegar de madrugada. A gente não se arrisca a sair de casa nessas horas de perigo, disse o aposentado Atubião Ribeiro, 65 anos. Às vezes, aparecem três ou quatro corpos espalhados pela estrada, mas é tudo gente de fora.
O delegado Luiz Omena conta que as vítimas desses grupos geralmente aparecem com dezenas de perfurações no corpo, provocadas por rajadas de metralhadoras, escopetas e outras armas de calibre grosso. A identificação dos corpos é uma tarefa difícil até para os parentes. O sequestro de pessoas pobres na Baixada Fluminense é a senha de uma execução, afirmou. Omena está há meses no rastro de uma quadrilha de quatro exterminadores, comandada por um homem conhecido como Jorge Siri. Eles são acusados de assassinar menores - supostamente infratores - da Baixada Fluminense.
Uma das ações mais comentadas do grupo de Jorge Siri culminou com o assassinato de dois meninos, no fim de 1996, punidos com a morte sumária por terem esvaziado os pneus de alguns carros durante uma festa promovida por políticos de Nova Iguaçu. Os integrantes da quadrilha trabalhavam como seguranças do evento. Os meninos teriam sido perseguidos pelos algozes até uma ribanceira, onde foram amarrados e fuzilados. Foi uma covardia e me estremece até agora, comentou Atubião Ribeiro. Eu conhecia os jovens, eram moleques, mas não perigosos, prosseguiu.
Ribeiro e seu vizinho Joaquim Vieira, de 59 anos, não pronunciam o nome de Jorge Siri. Língua solta é casa de marimbondo, ilustrou Vieira. Segundo ele, os grupos de extermínio agem em silêncio e não admitem testemunhas. Se eu visse tudo que pude ver nesse matagal, já estava cego ou em outro mundo, observou Vieira. O delegado Aguinaldo Ribeiro da Silva, da 58ª Delegacia Policial (em Posse, Nova Iguaçu), também confirma a existência dos matadores profissionais da Baixada Fluminense. Os mais perversos são o Zé Magrela, o Ricardo Bruxa, o ex-sargento da Polícia Militar, Paulo Gonçalves, e o Miltão, contou.
Ribeiro da Silva disse que a prisão preventiva dos quatro assassinos já foi pedida pela Justiça. Zé Magrela pertence a um grupo e os outros três formam outra quadrilha. Ricardo Bruxa é o mais temido deles e famoso nos municípios de Nilópolis, Queimados e Belford Roxo. É um homem com requintes de crueldade surpreendentes: costuma usar uma peixeira para decapitar os corpos das vítimas e depois derrama ácido sobre eles. Essas duas quadrilhas agiriam por conta própria - por prazer - ou por encomenda. Seus integrantes usam máscaras em todas as ações.


