São Paulo, 20 (AE) - Depois da belíssima montagem de "Rasto Atrás" em 1995, o Grupo Tapa volta à obra de Jorge Andrade em "O Telescópio", primeira direção do ator Zécarlos Machado. Comemorando 20 anos, a companhia dirigida por Eduardo Tolentino e patrocinada pelo Grupo Pão de Açúcar retoma a prática de manter em temporada um repertório com a qualidade artística que já se tornou sua marca registrada: textos dos melhores autores, elenco talentoso e afinado, direção inteligente e produção cuidada.
Com a estréia amanhã (21), somam três os espetáculos em temporada no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo. Nos fins de semana, o grupo apresenta "Corpo a Corpo", monólogo de Vianinha dirigido por Eduardo Tolentino e brilhantemente interpretado por Zécarlos Machado, e "As Viúvas", três peças curtas de Artur Azevedo, também primeira direção da atriz Sandra Corveloni. E agora "O Telescópio". Mas não é só. Daqui a um mês, no dia 20, reestréia a premiada montagem de "Vestido de Noiva", de Nélson Rodrigues, e Tolentino promete para pouco depois a estréia de "Navalha na Carne", de Plínio Marcos.
A encenação de "O Telescópio", além de revelar mais um diretor, reforça uma vocação do grupo Tapa: iluminar textos menos conhecidos de grandes autores brasileiros. O texto escolhido é o primeiro escrito pelo autor de "A Moratória", cuja obra revela aspectos históricos, sociais e psicológicos do universo da aristocracia rural, desde a forma violenta pela qual toma posse e mantém suas terras, passando pela decadência provocada pela crise de 1929, até o conflito com as novas gerações, já num Brasil em processo de urbanização.
Todo o universo do autor vai perpassar de alguma forma a montagem de "O Telescópio", que mostra um casal de fazendeiros em conflito com seus cinco filhos. Francisco (Genésio de Barros) e Rita (Lilian Blanc) conseguem manter seu patrimônio após a crise de 29, mas sofrem com o desregramento dos filhos, já em disputa por uma herança que provavelmente vão dilapidar. Metáfora da alienação - Na peça, o conflito latente na família ganha fôlego com o retorno à fazenda de Leila (Cristina Cascioli), uma das três filhas do casal, já morando na cidade e casada com um aristocrata falido. Sua chegada detona uma disputa precoce pela herança dos pais.
Enquanto os filhos jogam baralho na sala, na varanda os pais e um casal de amigos, também fazendeiros, entregam-se à fascinante contemplação das estrelas usando um telescópio. Contemplação que na peça funciona como metáfora da alienação de uma classe acostumada a estar no topo da hierarquia social, jamais olhar para baixo ou aceitar transfomações. "As estrelas não mudam de lugar; amanhã estarão aí novamente", diz Francisco à sua mulher.
A concepção de Zécarlos Machado promete, entre outras coisas, belas imagens. No palco todo negro os 11 atores, em figurinos inteiramente brancos, movimentam-se de forma a reproduzir a constelação do Cruzeiro do Sul e as Três Marias, entre outras estrelas citadas pelo patriarca.
Mais que isso, elementos como a força explosiva da miséria e do fanatismo religioso dos colonos, apenas apontados em "O Telescópio" e mais tarde desenvolvidos em outras peças, ganharam presença cênica sob a direção de Zécarlos. Tolentino elogia o fato de Zécarlos ter ampliado aspectos latentes no texto. "É um traço particular da encenação dele", diz.
Aprendiz na direção, Zécarlos está há seis meses mergulhado no estudo da obra do autor. "Não se pode ser leviano com Jorge Andrade, porque sua obra abre um leque de possibilidades para entender a história do País, entender por que estamos nesta situação, paralisados pelo comodismo", argumenta. "Um entendimento que pode ajudar- nos a sair do labirinto".
Tanto a formação de mais um diretor no grupo quanto a encenação de "O Telescópio" são frutos positivos do projeto Cena Aberta, uma iniciativa dos Ministérios da Cultura e do Trabalho, que patrocinou a reciclagem profissional de dez companhias no ano passado. Com a verba do projeto, o Tapa realizou um ciclo de leituras dramáticas, entre elas a de "O Telescópio", sob direção de Zécarlos.
"A partir dessa leitura me senti instigado a continuar investigando o universo de Jorge Andrade", argumentou o novo diretor. "Em seguida, o Sesc patrocinou a viagem de algumas dessas leituras dramatizadas pelo interior do Estado, o que permitiu aprofundar um pouco mais o trabalho". Bastante tenso nessa sua primeira experiência como diretor, Zécarlos desejaria ter mais seis meses para ensaiar. "Ao fim, ele iria querer ainda mais seis meses", brinca Tolentino.

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