Movimento Brasileiro de Hemofílicos (Mobhe) divulgou ontem documento em que denuncia irregularidades no fornecimento de medicamentos, queda na qualidade da assistência médica e o uso de remédios de ‘‘baixa qualidade’’. Segundo o movimento, a rede pública passou a distribuir o fator 8 de pureza intermediária, quando antes fornecia um concentrado de alta pureza. O fator 8 é um hemoderivado fundamental para a coagulação do sangue. Sem esse fator, o hemofílico pode morrer de hemorragia por pequenos traumas internos ou externos.
Por dependerem de hemoderivados, os hemofílicos são as maiores vítimas da falta de controle do sangue no País. Entre 80 e 86, 90% dos pacientes estavam contaminados com HIV. ‘‘Hoje, as contaminações são múltiplas, por HIV, hepatite, Chagas e outras doenças’’, diz Clayton da Silva, 32, vice-presidente do Mobhe e professor de informática aposentado. No documento, os hemofílicos afirmam que só restaram a eles ‘‘duas saídas: ou morrer pela hemofilia ou pela contaminação e reações alérgicas provocadas pelos medicamentos’’. Eles acusam as ‘‘posturas burocráticas e orçamentárias’’ de estarem ‘‘promovendo um genocídio dos pacientes usuários de produtos sanguíneos’’.
Nas últimas semanas, 19 pacientes tiveram problemas com o uso do fator 8 liberado pelo Ministério da Saúde. O Mobhe está orientando os hemofílicos a recusarem qualquer outro medicamento que não seja o fator 8 de alta pureza. ‘‘Se não há risco de vida, é melhor não tomar’’, diz Mario Lopes Meireles Filho, presidente do movimento. Os pacientes estão sendo orientados a recusar o crio em bolsa (fator 8 líquido), mais sujeitos a contaminação.
‘‘Na falta de medicamento ou atendimento, procurem uma delegacia de polícia e registrem queixa por omissão de socorro’’, diz Clayton da Silva. Até agora, os pacientes estão perdendo em todas as frentes. Uma ação contra o Estado impetrada há três anos por 11 pacientes ainda não foi julgada. Quatro já morreram.
O coordenador de sangue e hemoderivados do Ministério da Saúde (Cosah), Dalton de Alencar Fischer Chamone, 53, está sendo acusado pela Associação de Hemofílicos do Estado do Rio de favorecer empresas em licitações para compra de produtos hemoderivados e de não controlar a contaminação de sangue usado em transfusões. Chamone negou as acusações.

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