Grupo militar adere a levante indígena em Quito
Quito, 21 (AE-AP) - Centenas de indígenas - entre os milhares que protestavam em Quito durante toda a semana exigindo a renúncia do presidente equatoriano, Jamil Mahuad - atravessaram nesta sexta-feira (21) a barricada que protegia o edifício da sede do Congresso do Equador, invadiram o prédio, fizeram vários reféns e anunciaram a formação de uma "junta de governo de salvação nacional".
A participação de grupos de militares da ativa que apoiavam os indígenas transformou a manifestação violenta numa tentativa de golpe de Estado.
O coronel do Exército Lucio Gutiérrez, pouco conhecido até hoje, foi nomeado presidente da junta de governo por líderes do movimento indígena.
O político de oposição e ex-deputado Napoleón Saltos leu um comunicado no qual anunciou os outros dois membros da junta: o presidente da Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie), Antonio Vargas, e o ex-vice-presidente da Corte Suprema Carlos Solórzano.
Ao mesmo tempo, os manifestantes anunciaram a instalação de um "Parlamento do Povo do Equador".
Em uniforme de combate e usando uma faixa vermelha como símbolo do novo poder, Gutiérrez fez um breve discurso perante os manifestantes no plenário. "Escutaremos o que disser o Parlamento do Povo e faremos respeitar suas exigências", declarou, pouco antes de encerrar o pronunciamento erguendo o braço de Vargas para a euforia dos invasores. "Lucio, Lucio, Lucio", gritavam em coro.
Os indígenas compõem 40% da população equatoriana. Cerca de 5.000 deles chegaram a Quito no começo da semana para participar do "levante indígena" convocado pela Conaie para destituir Mahuad, os membros do Congresso e os integrantes do Judiciário - considerados por eles representantes de um sistema político corrupto e indiferente à penúria dos desfavorecidos.
Imediatamente após a tomada da sede do Legislativo, todos os generais das Forças Armadas foram convocados para uma reunião de urgência no Ministério da Defesa, da qual participaram Mahuad e os principais membros de seu gabinete.
Porta-vozes do governo que deixaram a reunião afirmaram que a cúpula militar do país apoiava irrestritamente a manutenção da ordem constitucional e, por consequência, Mahuad. De acordo com essas fontes, os comandantes qualificaram de "marginais" os grupos militares que apoiavam o movimento indígena.
"Só deixamos que eles passassem porque queremos evitar um choque com a população civil", afirmou o general do Exército Carlos Moncayo, encarregado da segurança do edifício no momento da invasão.
Mas, apesar da posição legalista da cúpula militar, o chefe do comando conjunto das Forças Armadas, general Carlos Mendoza, cobrou publicamente "ações constitucionais" de Mahuad para superar a crise.
"A instituição militar defende o sistema democrático", declarou o general num discurso lido em cadeia nacional de rádio e tevê. "As Forças Armadas e a Polícia Nacional demandam do presidente constitucionalmente eleito medidas constitucionais urgentes para preservar a ordem e evitar o isolamento internacional do país."
Mendoza também exortou os manifestantes e os militares rebeldes a "permitir a adoção de medidas legais em favor do Equador".





