Campos do Jordão, SP, 09 (AE) - O espírito de aventura aparecia nas bermudas, botas e chapéus. O desafio e a responsabilidade, porém, iam além disso: enfrentar lama, água, desníveis e imprevistos para chegar onde a chuva levou a destruição e tentar aplacar o sofrimento de algumas das famílias prejudicadas pela tragédia de Campos do Jordão, no Vale do Paraíba (SP). Um grupo de jipeiros saiu de São Paulo hoje para uma espécie de "rali voluntário".
A campanha SOS Campos, como ficou conhecida, foi criada por um dos gerentes do grupo de concessionárias Souza Ramos, Aloisio Christiansen. Ele, como muitos dos clientes do grupo que aderiram à idéia, participa do Rali das Montanhas, realizado anualmente em Campos do Jordão. "Todo ano, a gente explora o lado turístico dessa cidade; nada melhor que retribuir agora", raciocina.
Ele levou a idéia à Rádio Eldorado, que passou a convocar proprietários de carros off road. Hoje, cerca de 30 carros estavam em Campos para distribuir aproximadamente 10 toneladas de roupas, alimentos, móveis e utensílios domésticos.
O consultor de recursos humanos Eduardo Schumann, de 33 anos, chegou ao ponto de encontro dos jipeiros, na Penha, zona leste, perguntando como podia ajudar. Foi informado, como ocorreu com os outros, que bastava ter boa vontade. "Um amigo meu que sabe que sou piloto me ligou, disse que tinha ouvido o anúncio no rádio e eu era uma pessoa como a que eles estavam procurando." Decidido a colaborar, adiou a mudança de apartamento e, com a namorada, Lícia, pôs o carro à disposição. O biólogo Walter Lafratta arrastou a mulher, Maria Geny, e a filha, Camila, para a "aventura". Trocou a ida à praia pela ajuda. "Isso é cidadania."
Eram 10h30 quando o grupo de jipeiros saiu de São Paulo, seguindo pela Rodovia Presidente Dutra. Apesar dos insistentes pedidos de Christiansen, a NovaDutra não liberou o pedágio para o grupo.
Apenas na Rodovia Floriano Pinheiro começaram a aparecer as marcas da tragédia. A terra vermelha, ainda molhada, mostrando raízes de plantas, as árvores caídas e algumas encostas eram o sinal de que Campos do Jordão estava perto. Chegando à cidade, o grupo carregou os carros com as doações levadas numa carreta e seguiu para bairros afastados, que em nada lembravam a "Suíça brasileira".
A cada parada, para pedir informações sobre o caminho, moradores rodeavam os carros pedindo comida, roupa e atenção para seus dramas. Ao lado dos morros destroçados pela água, o verbo mais conjugado era o perder. "Eu perdi tudo, moço", contava uma moradora, querendo justificar o pedido de uma cesta básica. "Ela também perdeu a casa", dizia uma moça, tentando ajudar uma vizinha a conseguir alguma ajuda.
Pelas ruas enlameadas, gente trabalhando na reconstrução da própria vida. "Vou começar tudo de novo", disse, tentando disfarçar a tristeza, o pedreiro Antônio José Martins, enquanto revolvia a terra perto de sua casa, que foi soterrada.
O engenheiro civil Pedro Gonzaga Nunes também encarava sua ida à cidade como um recomeço de vida. "Eu sempre pensei em fazer alguma coisa, mas nunca fiz nada." Hoje, venceu esse "remorso" e foi ajudar a carregar as doações para cima dos morros. Nunes venceu também as dores nos rins, que sofrem os efeitos de uma hemodiálise. "Vim aqui para ficar de bem comigo mesmo." Ajudou, orgulhoso, a descarregar sacos e mais sacos na sede da associação de moradores do bairro Monte Carlo, que durante três dias ficou ilhada.
"Nem a Defesa Civil nem a prefeitura conseguiram chegar aqui", disse o vice-presidente da associação, Nelson Sebastião de Almeida. Tão voluntário quanto os jipeiros, ele saiu de sua casa, que ficou intacta, para socorrer os vizinhos. Quase morreu afogado numa lagoa durante o temporal. Hoje, ajudava a separar as doações para as encaminhar às famílias. "Graças a Deus que vocês vieram", disse, em agradecimento aos voluntários. No dia 16, uma nova caravana deve levar mais doações à cidade.