São Paulo, 18 (AE) - Duas situações inacreditáveis. Judeus e palestinos juntos. E mais: para escalar o Himalaia. Não bastasse toda essa originalidade, a intrépida trupe que vai encarar o desafio de atingir a primeira base, a 5,4 mil metros de altitude, também composta por brasileiros e canadenses, é formada por jovens e adultos portadores de deficiência mental.
A iniciativa, inédita, pretende pôr em prática um dos princípios básicos para o tratamento desses doentes, que representam de 3 a 5% da população mundial, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS): criar situações de total integração com a sociedade e - sempre - incentivar desafios. A idéia incomum foi do psicólogo romeno Arie Pencovici, que há 30 anos atua na área. Ele também acredita na aventura, que está marcada para outubro, como forma de chamar a atenção do mundo para o problema.
"Os deficientes mentais têm somente algumas funções cerebrais não evoluídas, mas as demais funcionam como nas pessoas ditas normais", disse Pencovici. E concluiu: "O problema é que carimbam o deficiente, rotulando-o e inibindo as funções cerebrais normais do doente; o que precisamos é estimular essas funções". Alguns jovens com problemas tratados por Pencovici conseguiram até ingressar em universidades.
Pencovici atualmente vive em Israel e coordena um programa especial de educação nesse país, batizado de Aldeia da Esperança. Uma réplica desse programa foi instalada no Brasil em 1989, com o mesmo nome, por iniciativa do Centro Israelita de Assistência ao Menor (Ciam), fundado em 1959. E todos os participantes da aventura, incluindo o brasileiro Saulo Halfin, de 31 anos, vivem em locais como esses espalhados pelo mundo.
Além de participar do projeto, Saulo, um dos cerca de 8 milhões de deficientes mentais do Brasil, auxiliará o grupo a conseguir um bom preparo físico. Com uma vida mais do que normal
ele dá aulas de ginástica na comunidade da Aldeia e brinca com o psicólogo sobre o hábito de fumar. "Se quiser ir, tem de entrar na linha". Mas não é só isso. O professor de educação física cuida de uma granja na Aldeia, cozinha com maestria e pretende até participar de um rali no próximo milênio, pois acaba de conseguir sua carta de motorista.
Mas o desânimo inicial de Saulo ao ingressar na Aldeia, há 4 anos, depois de sofrer um acidente que prejudicou algumas funções cerebrais, foi detectado pelos especialistas e motivou a procura de desafios para os excepcionais. "Ele só se realizou quando descobriu a educação física", conta o médico Sérgio Klabin, representante do Ciam. "E agora pretende até iniciar trabalhos de esportes radicais com o grupo." União - Já foram feitas, até agora, duas caminhadas preparatórias para a escalada, a última nas Colinas de Golan, onde fica a cidade de Tiberíades, às margens do Mar da Galiléia. A primeira levou um grupo de excepcionais ao Mar Morto. Todas elas, como ocorrerá no Himalaia, tiveram apoio de uma equipe especializada.
Além do desafio de subir 5,4 mil metros em 5 dias, caminhar cerca de 17 quilômetros diariamente, dormir em cabanas e ainda ter fôlego para a descida, que também deve despender outros 5 dias, os aventureiros e o psicólogo decidiram incrementar a excursão com uma pitada de política. É o motivo pelo qual fizeram questão de convidar representantes palestinos da Jordânia e Gaza. "Além de superar nosso desafio, daremos uma lição de vida", diz Pencovici. A empreitada já conta com o apoio de autoridades dos países do Oriente Médio envolvidos, mas a equipe brasileira ainda está à procura de patrocínio.

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