Grupo de artes dos EUA prova que surdos podem fazer de tudo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de fevereiro de 1999
por Mary Gabriel, da REUTERS (assinatura obrigatória) 
Washington (AE-REUTERS) - Durante seus 21 anos como diretor artístico da Universidade Gallaudet para os surdos ou quase- surdos, Tim McCarty introduziu os alunos a um mundo além do silêncio. Ele usou a dança, o teatro, uma criativa linguagem de sinais e artistas de outras culturas para ajudar seus alunos a descobrir a alegria de se comunicar através de movimentos e o poder das artes performáticas.
Um ano e meio atrás, depois de se aposentar da Gallaudet, ele decidiu que estava na hora de ensinar aquelas mesmas lições muito além de sua classe em Washington. McCarty deu início ao Quest, um fantástico grupo de arte sob o patrocínio do Programa Escolar para Jovens da Gallaudet, que produz performances originais teatrais, de dança e de "sinais de mímica" com um elenco composto de surdos, quase-surdos e pessoas com a audição normal. "Nossa missão é usar a arte para promover o entendimento entre as pessoas, promover excelência e ajudar as pessoas que foram marginalizadas a alcançar todo seu potencial", disse ele.
Mas quando as luzes do teatro são apagadas e a luz do palco é acesa, a companhia em turnê Road Signs, do Quest, faz muito mais do que isso. "Nosso show, nossa performance e nossa turnê demonstram que não há limites para o que pessoas surdas podem fazer - mostra que uma pessoa surda pode fazer de tudo, menos escutar", disse um membro do elenco da Road Signs durante um turnê por seis cidades da Índia no verão passado.
Em seu primeiro um ano e meio, a Road Signs se apresentou para quase 10 mil pessoas. Durante sua turnê na Índia, só em Auroville 1 mil das 1.400 pessoas da cidade foram assistir ao espetáculo. Nesta primavera a trupe viajará para a Jamaica e no verão embarca em uma turnê para a áfrica do Sul e o México. McCarty diz esperar que 30 mil pessoas vejam o show este ano. Em cada lugar, os artistas da Road Signs interagem com audiências de surdos, quase surdos e normais através das produções de palco e de workshops. "Uma das razões porque o show é importante é que as atitudes com pessoas que têm algum tipo de deficiência em outros países é muito paternalista. Na áfrica do Sul os negros certamente foram oprimidos com o decorrer dos anos, mas se você fosse uma pessoa negra deficiente isso seria ainda pior", disse McCarty .
Em muitos casos os surdos e outros deficientes não receberam a mesma educação ou as mesmas oportunidades de trabalho que os normais, e certamente não foram encorajados a expressarem-se artisticamente, ele disse. "Nossos estudantes tornaram-se embaixadores. Suas performances dentro e fora do palco são igualmente importantes", disse McCarty, adicionando que as platéias "vêem nossos estudantes felizes, independentes, inteligentes. Eles tornam-se heróis para as pessoas com algum tipo de deficiência". Minni Budhiraja, da escola Akshar Trust para crianças com dificuldades de audição em Baroda, trabalhou com a Road Signs quando a trupe viajou para sua cidade indiana. Ela disse ao The Times of India que a experiência foi muito além de uma noite no teatro. "Foi muito além disso: a comunicação de idéias e não palavras ... uma dança além da música", disse Budhiraja ao jornal.
McCarty disse que ele e seus colegas na Gallaudet, incluindo artistas e voluntários, conversaram durante anos sobre iniciar uma companhia. O Teatro Nacional dos Surdos viaja com suas produções e há algumas companhias de dança que apresentam componentes surdos, mas nenhuma trupe sozinha integrou diversas culturas, teatro, dança, poesia, linguagem de sinais norte-americana e mímica, disse ele. As conversações e os planos se tornaram sérios em 1997, e logo depois surgiu o Quest: Arte para Todos.
O Quest trabalha com o Programa Escolar para Jovens da Gallaudet em duas fases. A primeira é um curso de quatro semanas durante o verão chamado "laboratório cultural" da Gallaudet para introduzir os estudantes participantes, com idades entre 14 e 19 anos, a uma cultura particular através de roupas, comida, artesanato, religião, e mais significantemente, as artes. Por exemplo, este verão o grupo irá estudar a cultura romena e 25 alunos de todos os Estados Unidos irão trabalhar com o afiliado da Quest Mihai Malaimare, diretor artístico da Companhia de Teatro MASCA, de Bucareste. "No final das quatro semanas os estudantes e seu professor criarão um show baseado no que eles aprenderam. Entre a imersão e a emersão, nunca sabemos qual será o produto", disse McCarty.
Na Fase II, oito destes estudantes e um grupo de artistas profissionais levarão o show para a estrada, disse ele. "É uma continuação de nossa exploração da cultura, mas o outro e igualmente importante objetivo é levar mudanças sociais e educacionais a outros países para pessoas com deficiências. "Com fundos de contribuições corporativas e acompanhamento aos estudantes o Programa Escolar para Jovens paga a Fase I e alguns dos custos do intercâmbio internacional da Fase II. Uma vez que a trupe chega em um país hospedeiro para a Fase II, este país paga as contas. McCarty diz que todo o custo se aproxima de US$ 200 mil. "É difícil conseguir o dinheiro. É difícil convencer as pessoas quando é algo que nunca foi feito", ele admitiu. "Mas lembrando-me da Índia, digo Sim, é por isso que eu o faço". Na Índia sua trupe não apenas fez um bom show, disse McCarty, apesar de que sob a orientação do famoso dançarino- coreógrafo indiano eles certamente fizeram isso. A trupe também mudou vidas. "Fizemos performances pela manhã para escolas onde a grande maioria dos estudantes era surda. Nós demos a eles uma razão para irem ao teatro", ele disse. "Então, quando eles vieram, viram seus semelhantes e profissionais surdos no palco fazendo um show. É incrivelmente poderoso fazer um teatro que muda a vida das pessoas para sempre".


