Grupo de 50 camelôs invade prédio de 3 andares no Brás
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de outubro de 1999
Por Fabiana Gitsio 
São Paulo, 11 (AE) - Os ambulantes encontraram uma nova forma de pressionar a Prefeitura de São Paulo, que quer os retirar das ruas. Cerca de 50 camelôs e famílias ocuparam no fim da noite de ontem (10) um prédio de três andares no Brás, zona leste de São Paulo. Segundo o diretor do Sindicato dos Trabalhadores da Economia Informal José Ricardo Teixeira da Silva, o "Alemão", isso é só o começo. "Vamos invadir outros imóveis." Silva disse que a próxima ocupação ocorrerá no fim de semana, na Rua do Gasômetro. "Depois disso, será uma invasão a cada mês."
Hoje pela manhã, representantes do proprietário estiveram no Edifício Cândida, localizado no número 480 da Rua Assunção. Segundo Silva, eles propuseram vender o imóvel, que tem nove apartamentos, por R$ 600 mil. O grupo de camelôs disse que não quer morar de graça, mas aceita pagar apenas a metade, num período de 15 anos, por meio de financiamento da Caixa Econômica Federal (CEF) ou da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).
De acordo com o líder dos ambulantes, o imóvel estava abandonado havia dois anos e com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) atrasado. As condições são precárias: o prédio está deteriorado, não há água e existem várias infiltrações nos tetos e nas paredes. Na avaliação de Silva, o edifício necessita de reparos estruturais, que consumiriam R$ 250 mil.
Até quarta-feira (13), os ambulantes deverão ter a resposta do dono do prédio. O grupo sabe o que fazer, caso ele peça a reintegração de posse do imóvel: vai acampar diante do edifício. A reportagem procurou o advogado Luís Gastão Morato, representante legal do proprietário, mas a secretária dele informou que ele está viajando.
Segundo o cadastramento feito pelos ambulantes, há pelo menos 128 famílias querendo mudar-se para o Edifício Cândida. Esse é o motivo alegado para as outras ocupações que eles ameaçam fazer. No prédio, existem mais de cem crianças. Em 90% dos casos, os invasores, que trabalham no Largo da Concórdia, no Brás, estão com ordem de despejo decretada. Alguns deles são idosos. Por enquanto, cada família - algumas têm sete filhos - ocupou um cômodo.
O sem-teto João Hussu Neto, de 62 anos, conta que não pôde mais pagar o aluguel de 250 reais e teve de abandonar a casa onde morava, sozinho, na Vila Formosa, zona leste. "Estou perdido, não sei o que faço; por enquanto, não tenho destino", disse, desolado.
O camelô vende chinelos no largo e conta que, depois que a área se transformou no Bolsão do Brás, só viu o movimento cair. "Morava havia 14 anos na casa e sempre paguei o aluguel direitinho, mas, agora, o que ganho só dá para comer - e mal."
A sem-teto Sandra Regina Manuel, de 24 anos, mãe de duas meninas pequenas, também está sendo despejada. Por algum tempo, ela e o marido, que têm uma barraca de roupas no Largo da Concórdia, conseguiram convencer o dono do imóvel a não aumentar o aluguel de 350 reais para 400 reais. Depois, começaram a atrasar o pagamento e veio a ordem de despejo. "O que estamos ganhando agora é tão pouco que não dá nem para saber quanto é", reclamou.
Silva, que dirige um sindicato com 14 mil afiliados, acha que não será difícil atrair para o movimento ambulantes de toda a cidade. Uma sala dos 19 apartamentos do prédio está funcionando como escritório apenas para os cadastrar.
Na Lapa, zona oeste, onde os camelôs estão impedidos de trabalhar desde a semana passada, Silva calcula que há pelo menos cem famílias em situação difícil. Em Santana, zona norte, muitos foram retirados e tiveram as mercadorias apreendidas. O próximo alvo deverá ser o Brás, região que concentra o maior número de ambulantes.
No entender do sindicalista, é justamente sobre os ambulantes do Largo da Concórdia que recai o que chama de "perseguição" da Prefeitura. "Fomos nós que denunciamos o esquema de propina e, por isso, estamos sendo punidos."
Como exemplo do que considera punição, Silva cita o fato de o prefeito Celso Pitta (PTN) não ter aceitado a proposta do sindicato, de deixá-los permanecer no Brás, com uma distância de 10 metros entre cada barraca, que seria fixa.
Os camelôs estão aceitando a adesão até mesmo de quem não pertence à categoria. A procura de desempregados por uma vaguinha no Edifício Cândida começou, apesar de o grupo de invasores ter de tomar banho na casa de parentes e amigos. Basta apresentar atestado de antecedentes, Cadastro de Pessoa Física (CPF) e Registro Geral (RG), além de seguir o regulamento, que proíbe o uso de bebidas alcoólicas e o porte de armas.
Hoje à tarde, Regina Helena Costa foi pedir uma vaga para o filho desempregado, que arranjou o bico de "rodinho" de carros nos sinais. "Temos interesse nessa gente porque, com esse desemprego, mais cedo ou mais tarde, eles vão acabar virando camelôs também", justificou Silva.
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura informou que, na semana passada, Pitta reuniu-se com diversos líderes dos camelôs e com a promotora de Habitação Mabel Tucunduva Prieto de Sousa para resolver a questão dos camelôs. Na reunião, ficou acertado que serão criados mais três bolsões para diminuir o número de ambulantes no Largo da Concórdia. De acordo com a assessoria, os camelôs que ocuparam o edifício pertencem a uma ala radical, não- representativa da categoria.
A Secretaria das Administrações Regionais (SAR) alegou que nada pode fazer para retirar os invasores, uma vez que o imóvel é particular. O grupo comandado por Silva anunciou, porém
que pretende ocupar imóveis públicos.


