Buenos Aires (AE-AP) - O sinal azul colocado do lado de fora do mais novo café literário da cidade é adornado com o mais famoso símbolo de protesto argentino: o lenço de cabeça branco das Mães da Praça de Maio.
Duas décadas após as Mães terem marchado para a cena política com seus lenços para desafiar a junta militar, elas querem certificar-se que seus espíritos sobrevivam a elas, servindo cuidadosamente, aromáticas xícaras de café e de chá com seu ativismo corajoso.
O primeiro andar do escritório central foi convertido por voluntários num local de reuniões declaradamente anti-establishment, já que o grupo que tem insultado um governo argentino após o outro, durante a ditadura ou democracia. Jovens percorrem seus corredores com livros que vão de Karl Marx e Che Guevara aos pensadores atuais de centro-direita. O rock que sai dos alto-falantes é misturado aos discursos dos tempos em que as mães buscavam informações sobre os desaparecidos durante a "guerra suja" argentina.
"Este é um lugar para a causa", diz Mariela Rossi , 22 anos
uma das estudantes que trabalham com as Mães e ajudaram a idealizar o café. "Muitas das Madres já morreram e outras também morrerão, mas, através do café a causa permanecerá viva". As Mães marcharam pela primeira fez em frente ao palácio presidencial, a Casa Rosada, em 1977, exigindo o retorno de seus filhos e filhas que "desapareceram" durante a caça aos ativistas de esquerda. Agora, elas fazem campanha pela instauração de processo contra os oficiais acusados da responsabilidade da morte dos desaparecidos.
O governo estima que 9 mil argentinos, muitos deles ativistas de direita ou dissidentes, desapareceram entre 1976 e 1983. Grupos de Direitos Humanos dizem que este número é de aproximadamente 30 mil. Os líderes da junta militar foram processados e acusados a prisão perpétua em 1985. Mas o presidente Carlos Menem concedeu o perdão da pena em 1985.
Agora, muitos dos líderes, incluindo Jorge Videla e Emilio Massera, estão sob prisão domiciliar e enfrentam acusações no tribunal de que as crianças nascidas nos porões da ditadura foram sequestradas. Estas acusações não estão cobertas pela anistia de 1990.
As mães continuam a marchar, silenciosamente, toda semana, como têm feito desde a quinta-feira, 30 de abril de 1977, com seus lenços brancos ao redor da cabeça e segurando grandes fotos os desaparecidos.
Muita coisa mudou desde que a ditadura deu lugar à democracia nos anos 80. Das 2 mil Mães que marchavam na década de 70, apenas 600 aparecem agora para os protestos semanais. Várias já morreram e outras deixaram o movimento para retomar suas vidas.
O café é uma extensão dos esforços iniciados pelo grupo no final da década de 80 de passar adiante suas causas para os jovens argentinos.
Hebe de Bonafini, a líder de 71 anos das Mães, disse que o grupo cultiva bons relacionamentos com estudantes, desenvolveu seu próprio site na Internet e promoveu laços com jovens intelectuais e atores. "Nós vamos morrer e queremos colocar nossos sonhos e esperanças na juventude", diz Bonafi, que perdeu dois filhos durante a "guerra suja".
Mercedes Melono, uma Mãe de 73 anos que visita o café quase todos os dias, conversa com os visitantes enquanto tenta inspirar o ativismo nos jovens que conversam por horas entre biscoitos e xícaras de café. "Os jovens têm que ser politicamente ativos e pensar nos outros", diz Melono, cujo filho único desapareceu em janeiro de 1978.
As Mães promovem cursos sobre política e direitos humanos no café, que é também um local de apresentação para cantores e palestras sobre os anos da ditadura. O grupo acredita-se fundamental para que os argentino continuem a luta para descobrir os fatos sobre os "desaparecidos" e punir a junta responsável pela "guerra suja".
Voluntários ajudaram a criar a atmosfera do café, pintando as paredes e movendo mesas e cadeiras para a abertura em abril, além de trabalharem no local em nome das Mães. O café leva o nome de Osvaldo Bayer, um jornalista que foi exilado durante da ditadura devido as suas posições políticas.
Bebendo café com dois amigos enquanto ouve uma banda de rock envolvida na campanha das Mães, Sebastian Gianetti, 26 anos, diz que "este café ajuda as Mães com sua causa e faz com que todos saibam o que aconteceu sob o regime militar". Mas Simon Lazara
um militante das antigas campanhas por direitos humanos, diz que as Mães não precisam do café. "O espírito delas continuará a viver", afirma.

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