Famílias de lavradores sem-terra que invadiram quinta-feira uma fazenda entre os municípios de Cascavel e Catanduvas, no Oeste do Estado, estão recebendo a solidariedade de pequenos agricultores, instalados em áreas vizinhas, em um dos projetos de reassentamento executados pela Copel, para famílias que tiveram terras alagadas pelo reservatório da hidrelétrica de Salto Caxias, no Rio Iguaçu. Grupos de assentados têm ido ao acampamento, que, segundo coordenadores do Movimento dos Sem-Terra (MST) do Paraná, reúne aproximadamente três mil pessoas - não há cadastramento que confirme o número.
A fazenda ocupada tem 554 alqueires, compunha o antigo latifúndio, denominado Fazenda Refopas, da família Festugato, e, com seu desmembramento, tem como proprietária hoje Maria Elisa Festugato. O advogado da proprietária, Adelino Marcon, deve entrar com pedido de reintegração de posse amanhã. Segundo ele, a terra ‘‘é produtiva’’, com cultivo de soja, milho, trigo e aveia, além de matas. Não houve até ontem qualquer incidente na área, envolvendo os sem-terra ou funcionários da fazenda, que moram um pouco distante do acampamento, onde novos barracos de lona preta estavam sendo montados ontem. ‘‘Todos os que lutam por um pedaço de terra são bem-vindos’’, disse Oiti Finkler, coordenador do MST e do acampamento.
Os assentados que visitam o acampamento manifestam individualmente apoio não propriamente à ‘‘invasão’’, mas ‘‘à luta pela terra’’. Os assentados da Copel dividem pequenas áreas, nos quais desenvolvem vários projetos, conseguindo produção de qualidade e com elevada produtividade. O governo do Paraná proclama como ‘‘modelo mundial’’ os reassentamentos, inaugurados no ano passado pelo governador Jaime Lerner (PFL), com cerca de 600 famílias e em seis municípios do Oeste/Sudoeste paranaense. Os agricultores receberam no mínimo 15 hectares, independentemente de terem sido proprietários, meeiros ou arrendatários.
Eles próprios puderam escolher as terras, entre as que lhes foram colocadas à disposição pela Copel. Também receberam casas de 92 a 95 metros quadrados, com água e energia, além de paiol, e estrutura pública como estradas escolas, postos de Saúde e de telefonia, igreja e salão comunitário. A Copel garantiu ainda recursos para a consolidação dos reassentamentos, inclusive para correção e fertilização da terra - no total, 15,5 mil hectares. Os vizinhos dos sem-terra são 47 famílias, que dividem 1.210 hectares. Em Cascavel, estão instaladas outras 358 famílias.
Os assentados são liderados pela Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi). O coordenador, José Camilo, disse ontem a Folha que a organização, existente desde 93, ainda antes das obras da hidrelétrica de Salto Caxias terem sido iniciadas, ‘‘sempre apoiou a luta dos sem-terra, porque é justa, e a reforma agrária é imprescindível para o País’’. As condições de sobrevivência no acampamento são muito precárias, o frio na região é intenso, e um bebê morreu de pneumonia sexta-feira. Segundo Camilo, a Crabi vai prestar ‘‘ajuda humanitária, como sempre o fizemos’’, com doação de agasalhos e alimentos.

mockup