Greve obstrui "tomada" indígena de Quito Do enviado especial Lourival Sant'Anna
Quito, 15 (AE) - A capital equatoriana amanheceu neste sábado (15) preparada para uma guerra que não aconteceu. Depois de criar enorme expectativa com suas ameaças de "tomar Quito", para exigir a renúncia do presidente Jamil Mahuad e a destituição do Congresso e da Corte Suprema, os grupos indígenas não chegaram à capital de manhã.
A não ser pelo extraordinário contingente de 3.000 militares e 3.000 soldados patrulhando as ruas e guardando os pontos mais sensíveis, o movimento era praticamente normal.
Cada uma das ruas que dão acesso ao Congresso, onde o presidente faria um pronunciamento às 10 horas locais, estava bloqueada por dezenas de policiais, apoiados por carros blindados, enquanto caminhões de transporte de tropas percorriam a área. Só deputados, jornalistas e convidados podiam passar. O Parque El Ejido, nas proximidades do Congresso, estava cercado por um cordão de policiais e militares.
O Palácio do Governo, no centro histórico, também estava fortemente protegido. O presidente da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Antonio Vargas, informou que os manifestantes ainda estavam em fase de mobilização e não quis marcar nova data para sua chegada a Quito.
Aparentemente, a Conaie preferiu esperar a participação de outras organizações e sindicatos. No interior, a entidade iniciou à zero hora deste sábado o bloqueio de estradas como forma de pressão pela renúncia de Mahuad.
Em Quito, o mais provável é que manifestações em maior escala ocorram segunda-feira. Vargas, que dirige o autoproclamado Parlamento Nacional dos Povos do Equador, atenuou a linguagem belicosa por ele empregada antes, esclarecendo que não se tratará de uma "tomada" de Quito, mas de um "encontro" com a capital.
Tudo indica que os organizadores tiveram dificuldade de chegar a Quito por causa da greve dos ônibus em várias províncias, suspensa só na noite de sexta-feira. Dirigentes dos sindicatos de motoristas das províncias de Manabí e Los Ríos acusaram o governo de "solucionar" a greve tarde demais, o que impediu o transporte dos manifestantes.
O presidente da Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), Antonio Vargas, disse à Agência Estado que muitos índios ainda estão sendo mobilizados e outros já começaram a descer de suas comunidades ao longo da Cordilheira dos Andes, em direção a Quito.
"Estamos bloqueando as estradas até terça ou quarta-feira, quando vamos tomar o país", disse o líder indígena. "Será um levante total de todos os equatorianos, não só dos índios", acrescentou, ao lado de Fernando Villavicencio, do Sindicato dos Petroleiros.
"O governo só se tem dedicado a favorecer os empresários e banqueiros", afirmou. "Daqui a três meses pode haver guerra civil", alertou Vargas, na Escola Politécnica, a sede do autoproclamado Parlamento Nacional dos Povos do Equador. "Com o Parlamento, estamos defendendo uma mudança, para evitar derramamento de sangue."





