Greenspan insinua aumento dos juros nos EUA
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2000
Por Paulo Sotero 
Washington, 14 (AE) - Com a economia dos Estados Unidos a menos de um mês de entrar em seu centésimo sétimo mês consecutivo de crescimento e estabelecer um novo recorde de longevidade de um período de expansão, o presidente do Federal Reserve Board, Alan Greenspan, disse que não há indícios de que o tempo de vacas gordas que os americanos vivem esteja chegando ao fim. Mas deu um claríssimo sinal de que o banco central dos EUA apertará os juros na próxima reunião de sua comissão de política monetária, nos dias 1 e 2 de fevereiro, numa ação preventiva calculada para evitar que desequilíbrios derivados do insaciável apetite dos consumidores americanos numa economia que opera há meses em situação de pleno emprego provoquem um retorno da inflação e exijam um remédio mais amargo, que poderia levar à recessão que marcou o fim de todos os ciclos de prosperidade do passado.
Encorajado pelo aumento de apenas 0,2% do índice de preço ao consumidor em dezembro, ou 2,7% em 1999, o mercado, que já havia embutido no preço dos ativos uma alta de até 0,5% na taxa básica do Fed no primeiro semestre, interpretou o aviso do aumento de juros feito por Greenspan de forma positiva e a bolsa subiu.
Greenspan, que foi nomeado pelo presidente Bill Clinton, na semana passada, para um quarto mandato à frente do Fed é considerado como o principal arquiteto da atual bonança econômica dos EUA. Há mais de dois anos, ele vem alertando os americanos para o perigo de se acreditar que não limites para a expansão da economia do país. Na noite da terça-feira, ele reiterou a mensagem num discurso ao Economic Club de Nova York. Falando num dos salões do New York Hilton, o presidente do Fed disse que, por extraordinárias e transformadoras que sejam, as mudanças trazidas pela introdução das novas tecnologias de informação nos processos de produção e distribuição de bens e serviços não aboliram o ciclo de negócios, não invalidaram a lei da oferta e da procura nem desobrigaram os políticos da disciplina fiscal. Considerado um dos mais agudos analistas da economia americana, Greenspan disse que independetemente das causas da inflação baixa nos EUA, "há poucas dúvidas de que, no início no novo século, a economia americana nunca exibiu uma propesperidade tão notável para (e que beneficia) pelo menos uma maioria de americanos".
Mas o presidente do Fed mostrou que é também um homem de considerável coragem intelectual reconhecendo que nem ele nem ninguém entende ainda todas implicações das novas forças que estão em ação e que é cedo para se chegar a conclusões definitivas sobre a natureza do atual momento político americano. "Podem passar anos antes que compreendamos a totalmente a natureza das rápidas mudanças que confrontam nossa economia", disse ele. "É improvável que compreenderemos totalmente o processo e suas interações com os preços de ativos antes de atravessarmos um ciclo completo".
"Infelizmente, o Federal Reserve não pode se dar ao luxo de esperar... nosso objetivo ao responder à complexidade das atuais forças econômicas é estender a expansão contendo os desequilíbrios e evitando a recessão", afirmou Greenspan. O tempo permitirá uma melhor compreensão do fenômeno econômico que os americanos vivem hoje.
"Em 2010 é concebível que chegaremos à conclusão de que , na virada do milênio, a economia americana estava vivendo uma aceleração da inovação que acontece apenas uma vez por século e que ela impulsionou a produtividade, a produção, o lucro das empresas e os preços das ações a um ritmo que não era visto há gerações, se é que algum dia o foi", disse Greenspan. "Alternativamente, a restrospectiva de 2010 podem também concluir que boa parte do que estamos experimentando hoje era apenas mais uma de muitas bolhas especulativas que pontuaram a história humana", continuou ele. "E, é claro, não podemos descartar que poderemos olhar para trás e concluir que elementos de ambos cenários estiveram presentes em anos recentes".
A preocupação essencial do presidente do Fed continua a ser o "efeito riqueza" criado pelo que ele já chamou de "exuberância irracional do mercado", ou seja, uma excepcional valorização das ações em bolsa e de bens imobiliários alimentada pelas expectativas futuras de crescimento contínuo de lucros que resultam, por sua vez, do extraordinário aumento da produtividade obtido graças à integração das novas tecnologias no processo produtivo. Seis em cada dez americanos têm ações em bolsa. Com esses papéis valendo cada vez mais (em média, eles mais do que triplicaram de valor nos últimos sete anos), os americanos passaram a consumir cada vez mais, alimentando um processo em que, nas palavras de Greenspan, "os ganhos (da valorização das ações no mercado) tenderam a fomentar aumentos na demanda (de bens) maiores do que os aumentos da oferta". Ao mesmo tempos, eles têm o efeito de reduzir a poupança privada, pois as pessoas e as empresas endividam-se no presente contando com renda que só realizarão no futuro , se a expansão continuar.
"É esse desequilíbrio entre o crescimento da oferta e o crescimento da demanda que contém as sementes de pressões inflacionárias e financeiras crescentes que podem minar a atual expansão", disse Greenspan. Se ele ainda não gerou instabilidade nos preços, é porque vários fatores atuaram para suprimir a inflação, explicou o presidente do Fed. Um deles é a redução de custos e os ganhos de eficiência possibilitados pelas novas tecnologia em toda a economia, da produção e distribuição de livros à fabricação e entrega de bens de capital. Outros incluem o aumento da oferta global de bens nas antigas repúblicas soviéticas e nos países emergentes; a redução de gastos militares nos EUA e no resto do mundo que o fim da guerra fria tornou possível e que liberou enormes somas para investimentos produtivos; a desregulamentação que removeu gargalos e reduziu custos e preços e muitas economias; e a crise financeira de 1997 e 1998 que reduziu os preços de energia e de outros insumos, ajudando a manter a inflação sobre controle.
Se o consumo de bens importados baratos ajudou a manter a estabilidade dos preços, a importação de mão de obra imigrante contribuiu para evitar a pressão inflacionária sobre os salários num mercado de mão de obra apertado, que exibe hoje um desemprego de apenas 4,1%, o mais baixo em três décadas.
Greenspan admitiu que aumentos de salário acima do crescimento da produtividade podem não ser inflacionários e destrutivos para o crescimento, se forem compensados por reduções em outros custos e um declínio das margens de lucro. Mas uma redução continuada das margens de lucro "é uma receita para a recessão". Por isso, concluiu ele, "se o nosso objetivo é alcançar o máximo crescimento econômico sustentado (possível), a oferta de trabalhadores não pode diminuir indefinidamente". "Um excesso de demanda em relação à oferta traduz-se em investimentos que superam a poupança que (sem ele) estaria disponível para manter a economia em potencial pleno", disse. "No final, o equilíbrio é alcançado por meio de taxas de juros mais altas".
O presidente do Fed advertiu os políticos a não cederem à tentação de usar os saldos orçamentários que os EUA vêm registrando, em resultado dos crescimento, lembrando que ele tem contribuído para compensar o endividamento crescente das pessoas e das empresas "absorvendo boa parte do excesso da demanda privada potencial em relação à oferta potencial". Com os candidatos republicanos à presidência apresentando planos de redução de impostos que implicam em renúncia fiscal por parte do governo e a administração Clinton gastando mais do que previa, Greenspan deixou claro que reduções dos saldos federais previsto podem levar o fed a apertar mais os juros, dziendo confiar que o recente aumento nas despesas públicas "é uma aberração".


