Washington, 23 (AE) - O presidente do Federal Reserve Board, Alan Greenspan, afirmou nesta terça-feira (23) que a situação do Brasil continua "incerta" e que as "autoridades brasileiras precisam caminhar por uma trilha estreita e difícil para restaurar a confiança e manter a inflação contida enquanto tratam dos sérios desequilíbrios fiscais", que o país enfrenta. Mas o presidente do banco central dos Estados Unidos os responsáveis pela condução da política econômica no Brasil "estão agudamente conscientes" da situação e previu um desfecho positivo.
"As pessoas lá (no Brasil) são bastante competentes, conhecem bem e compreendem a questão com a qual estão lidando, estão trabalhando nela e desejo-lhes sorte", disse Greenspan, depois de notar que o real estava em queda pronunciada até o início de sua apresentação aos senadores.
"Suspeito de que no final vamos ver que o Brasil é uma economia formidável , como tem sido". O presidente do Fed disse também que, embora "seja muito cedo para presumir que o contágio (das crises financeiras) tenha ficado para trás, ele é claramente menor" hoje.
Referindo-se à capacidade demonstrada pela Argentina, o país mais diretamente afetado pela crise brasileira, de voltar a levantar dinheiro no mercado, Greenspan enfatizou que se observa "um maior grau de sofisticação no sistema financeiro internacional sobre como se proteger dos problemas de contágio".
A avaliação resume a cautela com que o governo norte-americano e os organismos financeiros vêem hoje a situação brasileira. O presidente do Fed manifestou-se sobre a crise de credibilidade que o País enfrenta em dois momentos de seu depoimento semestral ao Congresso americano sobre as perspectivas da economia americana.
Ele fez a primeira menção extensa sobre o Brasil no texto escrito de sua apresentação inicial membros da Comissão de Finanças do Senado, para explicar que, embora o panorama doméstico da economia americana permaneça favorável, a situação é menos claro fora dos EUA.
Greenspan disse que as reformas estruturais executadas pela Tailândia e pela Coréia do Sul, no quadro de programas de estabilização negociados com o Fundo Monetário Internacional, estão produzindo resultados. "À medida em que a confiança dos investidores retornou, as taxas de câmbio (de suas moedas) aumentaram e as taxas de juros caíram", informou o presidente do Fed. "Com persistência e a continuação das reformas, o futuro dessas economias promete". "A situação em outras economias de mercados emergentes não são tão encorajadoras", continuou Greenspan, falando em seguida da Rússia e descrevendo o desafio que as autoridades econômicas brasileira têm pela frente.
Greenspan voltou a falar sobre o Brasil para responder a uma pergunta do senador Christopher Dodd, democrata de Connecticut e vice-presidente da subcomissão do Senado que acompanha os temas hemisféricos. "Todos temos preocupações consideráveis sobre o impacto potencial dos problemas brasileiros na Argentina, México e (...) nos Estados Unidos".
O presidente do BC americano observou que o período prolongado pelo qual o Brasil permitiu que seus problemas persistissem "permitiu a uma parte substancial daqueles que tinham compromissos temporários no Brasil, (fossem) estes relações bilaterais com o governo ou o setor privado, a buscar proteção (em papéis indexados) ou a deixar (os créditos) vencer (e não renová-los)".
Em consequência disso, por causa da duração da crise os (investidores) que ficaram no Brasil são obviamente aqueles com compromisso de longo prazo e instituições financeiras com laços sólidos com dentro do sistema financeiro brasileiro e companhias com laços de longo prazo" no País.
Assim, continuou Greenspan, "quando a moeda brasileira caiu fortemente, em vez de vermos um efeito de contágio dramático na Argentina e no México, o que vimos foi o peso mexicano cair no primeiro dia, mas desde então recuperar toda a perda e, na realidade, estar hoje mais alto".
Sobre a Argentina, o presidente do Fed repetiu o argumento do ministro das finanças Roque Fernandez, que destacou a capacidade demonstrada pelo país de retornar ao mercado em apenas três semanas, em lugar dos meses de ostracismo financeiro que o país experimentou em crises passadas.
Os Estados Unidos, que são o maior mercado individual para as exportações brasileiras, contribuirão para o sucesso dos esforços do País para superar a crise, prolongando aquela que já é sua mais prolongada expansão econômica em tempos de paz.
O Fed prevê um crescimento de 2,5% a 3% do PIB dos EUA este ano, menor do que em 1998, com uma inflação de 2% a 2,5%, maior do que a do ano passado.
Mas Greenspan deixou claro que há riscos crescentes no panorama ecônomico dos EUA a médio prazo (mercado de ações supervalorizado, pleno emprego criando pressões inflacionárias, aumento dos déficits comerciais e de conta corrente) e não afastou a possibilidade de, ainda este ano, o Fed dar um aperto na taxa básica de juros, que está em 4,75% depois de três cortes consecutivos de 0,25% a partir de novembro passado.
Essa perspectiva confirma que o Brasil tem um período relativamente curto para completar as reformas fiscais e sair da crise antes de ser sofrer mais um solavanco externo.

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