Greenspan: Brasil estacou implosão, mas ainda corre perigo. Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 06 (AE) - "O Brasil conseguiu estancar uma implosão (econômica) em perspectiva após sua crise cambial ...a situação atual, quando se olha para o real, é claramente de melhora significativa e estabilização ... mas (o País) ainda não saiu do perigo", afirmou hoje (06) o presidente do Federal Reserve Board (Fed), Alan Greenspan, numa palestra em Chicago.
Respondendo a perguntas depois de fazer um denso discurso de sinalização dos rumos da economia americana, o chefe do conselho de governadores do banco central dos Estados Unidos disse que, apesar dos progressos, a estrutura fiscal brasileira continua a ser o grande obstáculo para o país consolidar a estabilidade. Apesar dos progressos realizados até agora e do empenho da equipe econômica brasileira no programa de reformas, "a estrutura fiscal do Brasil continua a ser um problema e, de fato
os formuladores da política econômica brasileira a descrevem como o problema", disse Greenspan.
"Eles parecem ter acertado na maioria das outras coisas", acrescentou.
Embora seja uma reiteração de afirmações feitas anteriormente por altos funcionários do Tesouro e por executivos de Wall Street, a declaração de Greenspan são importantes pelo momento e o contexto em que foi feita. Sábado, o presidente Fernando Henrique Cardoso parte para breve visita de trabalho a Washington e Nova York, que tem por objetivo principal remover as dúvidas que a crise cambial de janeiro passado deixou sobre o grau do compromisso do líder brasileiro com a execução do programa de reformas estruturais de seu governo. Com exceção de um encontro que deve ter com o presidente Bill Clinton, Fernando Henrique cumprirá uma agenda exclusivamente econômica, que inclui nada menos de quatro discursos a platéias de empresários, banqueiros, investidores e analistas financeiros num período de menos de 36 horas, entre segunda e terça-feira.
O alerta de Greenspan foi feito num discurso em que, mesmo classificando o desempenho da economia americana nos últimos anos como "verdadeiramente fenomenal", o presidente do Fed chamou atenção para dois problemas potenciais que ameaçam a economia, em seu nono ano de expansão: a escassez de mão de obra numa economia que opera já há algum tempo a pleno emprego e um mercado de ações que não para de crescer podem levar a um aumento da inflação e exigir um aperto na política monetária. Greenspan não estendeu a análise de tais desdobramentos à situação brasileira, mas é óbvio que um aumento da taxa de juros e uma desaceleração do crescimento nos EUA, hoje a única locomotiva que puxa a economia mundial, complicaria o quadro já adverso no qual o Brasil terá que completar o programa de reformas se quiser garantir e institucionalizar a estabilidade.
A falta de atenção da classe política brasileira ao frágil contexto econômico doméstico e internacional no qual o País opera sua surpreendente reação à crise e a incapacidade política que o Palácio do Planalto tem revelado para sensibilizar o Congresso para os riscos da demora na execução das reformas alimentam as dúvidas e motivam as repetidas advertências sobre os limites da recuperação econômica do País por figuras-chave como Greenspan.
O presidente do Fed creditou o período dourado de crescimento econômico vigoroso quase sem inflação que os EUA vivem já há alguns anos, à revelia dos manuais de economia, aos ganhos de produtividade dos trabalhadores americanos - ou seja, o aumento da produção por hora trabalhada . O aumento da produtividade é o resultado de grandes investimentos que as empresas fizeram em computadores e outros produtos de alta tecnologia . Ao mesmo tempo, Greenspan disse que os benefícios da integração de novas tecnologias na produção têm limites e que os EUA e o resto do mundo não devem esperar que o crescimento sem pressão inflacionária se perpetuará. "Há desequilíbrios em nossa expansão que, se não forem corrigidos, levarão ao fim esse longo período de crescimento forte e baixa inflação", afirmou ele. "Em algum momento, as condições do mercado de trabalho pode se tornar tão apertadas que o aumento dos salários nominais começará a adiantar-se cada vez mais em relação aos ganhos de produtividade e os preços inevitavelmente começarão a aumentar".
Sobre o mercado de ações, o presidente do Fed não repetiu a advertência sobre a "exuberância irracional" que começou a fazer em 1997, quando os índices da Bolsa de Nova York mostraram números bem menos exuberantes do que exibem hoje. Mas ele deixou claro que não considera sustentável a atual euforia em Wall Street e indicou que não ficará surpreso diante de uma correção. Embora os dados macroeconômicos não indiquem uma queda no crescimento da produtividade, Greenspan disse a expansão eonômica "induziu um aumento espetacular no valor da ações que, para muitos, já foi muito além do justificável".
Uma outra preocupação do presidente do BC americano é o déficit comercial, que bateu em US$ 19 bilhões em fevereiro e pode chegar a um recorde de US$ 300 bilhões em 1999. Depois de lembrar que o apetite dos americanos por produtos importados, especialmente aos preços mais baratos de países que desvalorizaram suas moedas na crise financeira, ajudou a manter a inflação baixa nos EUA num período de forte aumento do PIB. "Mas há limites sobre o tempo e o tamanho do déficit comercial que ( um país) pode sustentar", disse ele. As declarações de Greenspan provocaram queda nos mercados de bônus e em Wall Street.





