O deputado federal mais votado do Paraná - ‘‘do Brasil!’’-, o candidatíssimo Greca recebeu na sexta-feira os repórteres da Folha na luxuosa casa alugada no Centro Cívico que lhe serve de escritório político, não por acaso modestamente chamado de Instituto Farol do Saber, cujo símbolo usou na campanha. Pomposo, entre citações de livros sagrados hindus, máximas filosóficas pré-socráticas e passagens da história, Greca respondia, às vezes discursava, sempre após cúmplice troca de olhares e de movimentos de cabeça com a assessora Tereza Castro. Outros três assessores completavam a claque, municiando-o com números e, quando necessário, risos de suas tiradas. Nada que surpreenda. Greca é assim: havendo platéia, há show. Os próximos quatro anos prometem.
Folha - Sua votação confere com suas contas?
Rafael Greca - Eu não tinha a menor conta. Eu tinha uma campanha muito alegre, porque o povo da cidade, da Região Metropolitana me tratou muito bem. Eu fui eleito pelo interior e glorificado por Curitiba. Eu vim do interior com 61 mil votos. Fui canonizado por Curitiba.
Folha - Quanto o senhor gastou na campanha?
Greca - Não tenho idéia. A Tereza (Castro, assessora) é quem sabe. Sei, sim, que houve muitas doações. As pessoas que mais deram dinheiro, deram R$ 30 mil. (A assessora de Greca informa que foram gastos cerca de R$ 320 mil).
Folha - Quais seus planos na Câmara?
Greca - Uma idéia é pôr em prática o que o PFL prometeu para a coligação que elegeu o presidente Fernando Henrique, que é a transformação da Caixa Econômica no Banco das Cidades. E com certeza provocar a reforma da Lei das Licitações, a 8.666, que foi um dos meus martírios enquanto prefeito. A lei engessa e não permite um controle de qualidade das obras públicas.
Folha - A sua crítica à lei também se estende ao controle do dinheiro público?
Greca - É muito falha. Quem quiser roubar, rouba. Vamos montar um grupo de estudos e vamos nos dedicar a esta lei.
Folha - Com que outro tipo de leis o senhor pretende trabalhar?
Greca - Transformar em crime hediondo os assassinatos de motoristas, cobradores, taxistas e vigilantes em serviço. E mais: a sociedade tem de ter coragem de ver a função educativa da televisão e de regulamentar a exploração de crianças e pessoas com necessidades especiais no grotesco eletrônico.
Folha - O senhor está se referindo a programas como o do Ratinho?
Greca - Estou me referindo ao circo de Tibério em que a televisão se transformou. Tibério mantinha em sua ilha, em Capri, um museu de pessoas com deformação congênita e depois as mandava matar. Essa barbárie de dois mil anos atrás não pode se repetir na televisão, e está se repetindo. O E.T., com certeza, é uma pessoa com necessidades especiais, que não pode ser maltratado. Ah, mas ele ganha dinheiro com isso, dizem. É cinismo.
Folha - O que fazer para resolver o problema?
Greca - Há de ter uma regulamentação ética para que a concessão pública seja voltada à educação. Eu não estou falando de censura. Estou falando em regulamentação ética. Acho que um conselho com a OAB, Associação Brasileira de Imprensa, Conselho Mundial das Igrejas e os parlamentares pode perfeitamente decidir isso.
Folha - Qual será a reação dos meios de comunicação?
Greca - Os meios de comunicação não vão ser contrários porque se a regulamentação for para todos, baixa também a obrigação de buscar o mais grotesco. Talvez um dia, depois de tanta grosseria, a sociedade enjoe desse tipo de coisa. Quero levar isso ao debate.
Folha - E o que mais?
Greca - Quero também propor uma lei que obrigue o fim das obras inconclusas (cita vários casos). Quero também que os recursos do FAT apóiem os cursinhos vestibulares gratuitos, com os melhores alunos da rede pública em cada uma das cidades do Brasil.
Folha - De qual estrutura o sr. pretende dispor na Câmara?
Greca - Não tenho idéia ainda. Estou recém-eleito. Entro na Câmara com muita humildade. Eu não posso, mesmo tendo passado em primeiro lugar no vestibular, chegar no colégio e já assumir o centro acadêmico. Eu vou apanhar dos alunos do quinto ano. Acho que não é agradável nem lúcido aceitar algum cargo agora porque eu acabaria me queimando.
Folha - Sua votação lhe dá fôlego para discutir questões políticas do Estado. O sr. vai buscar mais espaço?
Greca - Eu não pretendo buscar espaço, eu já tenho espaço. Vocês não acham espaçoso (ter) 226.654 votos concorrendo com 193 pessoas? Não houve na história do Estado nenhuma votação como a minha. O Álvaro Dias teve votação menor em números absolutos e talvez um pouco maior em números percentuais, em 74, mas concorreu num tempo em que ser contra a ditadura era ser ungido pelos deuses como libertador do povo. Hoje, não. Tenho a minha palavra e a minha obra contra 193 concorrentes.
Folha - O senhor acha que a sua votação surpreendeu o Palácio Iguaçu?
Greca - O governador, quando fala comigo, só me chama de ‘‘meu campeão’’. Acho que ele está bem feliz. Está feliz porque a minha votação é maior que a diferença do governador e de seus adversários. Será que fui eu que pesei na balança?
Folha - Se o senhor tem este espaço, por que não foi escolhido como candidato ao Senado?
Greca (irritado) - Eu não preciso pedir mais nada e não preciso provar mais nada. Ponto. Depois de ter sido prefeito de Curitiba, eu já não precisava nem pedir nem provar nada. Mas eu ainda tinha sobre mim aquela lenda de que os meus votos eram sempre decorrentes do apoio do grupo ou do apoio do governador. Agora, parece que isso passou. Claro que tive o voto pessoal do governador. Ele é meu amigo e vai continuar sendo, mas quem duvidava que eu não tinha votos, agora está exorcizado.
Folha - O senhor tem vontade de ser governador? Por quê?
Greca - Eu sou paranaense. O meu bisavô foi vice-governador do Estado no tempo do Império. Os meus antepassados fundaram Curitiba, desenharam boa parte do Estado, fundaram a primeira universidade do Brasil. Eu tenho uma legitimidade no passado. E o meu trabalho em Curitiba mostra que eu sou capaz de ajudar o Paraná a ir para o futuro. Eu estou perfeitamente identificado com o propósito de modernização do atual governador Jaime Lerner. Tenho uma grande votação. O povo me aprecia. Não é mais só em Curitiba, é em todo o Paraná.
Folha - O seu trabalho como prefeito de Curitiba está encerrado?
Greca - Daqui para a frente, eu passei o Passaúna (n.r.: rio de Curitiba), como Júlio Cesar passou o Rubicão (n.r.: governador das Gálias, César recebe ordem para depor as armas, mas cruza o rio Rubicão, que separava a Gália da Itália e pronuncia a famosa frase ‘‘a sorte está lançada’’, conquistando Roma depois. Em se tratando de Rafael Greca, a citação é altamente emblemática). Ai dos que não passam o Passaúna. Secretários de Estado que não passam o Passaúna comprometem o governo inteiro. É preciso passar o Passaúna com coragem.
Folha - Isso significa que, no ano 2000, o sr. não pretende concorrer à Prefeitura de Curitiba?
Greca - Não pretendo. Acho uma traição contra o Brasil tirar a reeleição. Já que fizemos este avanço, vamos avançar.
Folha - O senhor acha que o prefeito Cássio Taniguchi deve ser reeleito?
Greca - Se ele for bom para Curitiba na ocasião, por que não?
Folha - Como o senhor avalia a gestão dele?
Greca - Eu tenho muita alegria porque ele está continuando as minhas obras. O programa do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) está sendo cumprido e issso me deixa muito feliz. Ele terminou alguns Faróis do Saber que ainda não estavam concluídos. Mas tenho um pouco de apreensão quando, por exemplo, ele corta um convênio com o Pronto-socorro do Hospital Cajuru e lhe tira R$ 35 mil. Isso me assusta, porque eu pus esse recurso no pronto-socorro, porque sei que deve haver qualidade, porque é a vida humana que está em jogo. Como é que vai dizer o prefeito de Curitiba a frase clássica que não é do Lerner, mas do Policleto: ‘‘O homem é a medida de todas as coisas’’? Se o homem é a medida de todas as coisas, o pronto-socorro não pode ficar sem recursos. Há coisas que eu concordo, há outras que eu discordo. A minha mulher (Margarita Sansone) é secretária da Cultura do Cassio. Eu tenho minha opinião, mas não vou externá-la.
Folha - O senhor acha que o prefeito Cassio Taniguchi reúne condições de ser candidato ao governo?
Greca - Prefiro que ele cumpra bem o seu mandato.
Folha - Se for o caso, o deputado federal Rafael Greca atropela o processo?
Greca - O Rafael exerce o seu direito, não atropela nada.
Folha - Na disputa pela Prefeitura de Curitiba, em 92, Cassio Taniguchi e Carlos Eduardo Ceneviva (diretor da Urbs) eram os favoritos. O sr. os atropelou?
Greca - Teriam perdido a eleição para o Requião porque naquela ocasião eu ganhei de nove candidatos e do Requião na televisão. Foi muito diferente da eleição em que eu fiz o sucessor, quando o Cassio concorreu apenas com o Max Rosenmann, muito desgastado - a única coisa nova no Max era a tintura do cabelo - e com o Carlos Simões. Eu não vi os números metropolitanos, mas parece que quando eu era prefeito, o Jaime ganhou melhor na região de Curitiba. Eu ofereci vitória melhor para o governador que o atual prefeito.
Folha - Como o sr. avalia essa diferença apertada entre Lerner e Requião?
Greca - Como a vontade do povo. A vontade do povo a gente não avalia, aceita. Acho que o governo tem de ver os lugares onde sofreu derrota e trabalhar em dobro.
Folha - Foi mais rejeição ao atual governo ou foram votos em favor do senador Requião?
Greca - Acho que o Requião não tem voto dele mesmo. As dificuldades econômicas pelas quais passa o governo do Estado, decorrentes da retenção do ICMS dos produtos agrícolas pela lei Kandir, decorrentes do próprio bloqueio dos empréstimos internacionais, tudo isso influiu no resultado da eleição. Houve, ainda, uma certa incompreensão por parte da sociedade civil, com relação à necessidade de as rodovias serem modernizadas por pedágio.
Folha - O senhor é favorável ao pedágio?
Greca - Sou favorável ao pedágio. Não sou favorável às filas em dia de feriado. Acho que é possível implantar um sistema como o italiano, em que se coloca um magneto no carro e na cancela. Temos que ser realistas. Tudo, para acontecer, tem que ter fonte.
Folha - Como o senhor vê a relação da atual bancada com o governo?
Greca - Há um trauma na bancada, a ser superado, decorrente daquele acordo pelo qual os deputados abriram mão de suas emendas individuais em favor do governo, e depois o governo não honrou os investimentos no valor das emendas. Esse trauma eu senti quando chefe da Casa Civil. Espero que o novo governo do Jaime Lerner tenha capacidade de ser renovado no seu propósito de cumprir os seus objetivos. É melhor não prometer, que prometer sem poder cumprir.

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