Chico Araújo
Agência Estado
De Brasília
O ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, decidiu encobrir o que Pero Vaz de Caminha chamou de ‘‘vergonhas’’ dos índios, há 500 anos, e mandou confeccionar peças da cor da pele para os pataxós usarem durante as festividades do descobrimento do Brasil. O primeiro lote, com 50 sungas e maiôs, está programado para chegar a Santa Cruz de Cabrália, na Bahia, neste fim de semana. -
Segundo a assessoria de Greca, a compra das indumentárias, feita por meio de convênio com a comissão organizadora dos festejos, teria sido efetuada, de fato, com recursos do ministério, atendendo a pedido dos próprios índios. A assessoria não revelou o valor gasto na compra das sungas e maiôs para os índios, mas garantiu que a aquisição dos materiais teve o objetivo de ‘‘padronizar’’ as vestimentas dos indígenas nas festividades.
A prática de distribuir sungas aos índios não estaria sendo adotada somente agora pelo ministro Rafael Greca. Desde o ano passado, quando se iniciaram as festividades referentes aos 500 anos, Greca decidiu ‘‘padronizar’’ as vestes dos índios durante suas apresentações. Isso ocorreu em, pelo menos, duas oportunidades: na abertura da Festa do Descobrimento, no ano passado, em Brasília, e numa solenidade com a participação de indígenas, na serra da Capivara.
A utilização das peças, segundo assessores de Greca, teria a finalidade de evitar que índios mal trajados ‘‘destoassem’’ nas apresentações. Os índios, geralmente, usam roupas multicoloridas por baixo de seus trajes típicos. Para evitar qualquer problema desse tipo, Greca optou por adotar peças cor da pele.
Recado Ontem o presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou discurso durante solenidade para mandar um recado velado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros grupos que estão ameaçando protestar durante as comemorações dos 500 anos do Brasil.
‘‘Espero que possamos multiplicar centenas de milhares de pessoas que no Brasil se tocam e percebem que é preciso sair do isolamento e do egoísmo de cada um de nós, até mesmo do isolamento e do egoísmo das nossas próprias vontades organizadas, seja um partido, seja um movimento social, seja um grupo de pressão’’, disse.
Alunos do Colégio Estadual Jardim Independência, em Sarandi (PR), realizaram ontem de manhã uma passeata em comemoração aos 500 anos de Brasil. A homenagem foi um misto de comemoração e de protesto contra os descasos do governo com a educação, saúde e desemprego. Divididos em alas, os alunos representaram os índios brasileiros, personagens folclóricos como a tradicional baiana e a classe política. Vários estudantes carregaram cartazes e faixas com dizeres de protesto e de alerta à população. Um desses cartazes trazia a frase: ‘‘Esmola não, emprego sim’’.

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