São Paulo, 03 (AE) - A privatização da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás) está chegando à reta final. Quarta-feira, às 18 horas, será divulgada a relação das empresas que se habilitaram a participar do leilão. Será uma das últimas etapas até o dia 14, quando a Comgás será vendida, num leilão que promete ser bastante disputado pelo porte e interesse já demonstrado pelos grupos que solicitaram acesso à sala de informações (data-room) da companhia - 20 grupos nacionais e do exterior.
Um número bem menor de empresas, porém, deverá efetivamente concorrer ao leilão. Depois de habilitados, os grupos tendem a compor-se formando consórcios. Na véspera do leilão, os interessados deverão depositar as garantias financeiras, que irão assegurar a participação na privatização. Segundo estimativas de analistas e executivos do mercado que acompanham o setor, três ou quatro envelopes deverão ser entregues contendo a proposta de compra da empresa.
Mas o leilão poderia ter apenas dois participantes. O que vale mesmo é o apetite em adquirir a empresa e este não parece ser pouco. Várias companhias estão de olho na Comgás, empresa cuja história teve início com a fundação da The San Paulo Gas Company, em 1869, para explorar a concessão dos serviços de iluminação pública da cidade de São Paulo.
área nobre - Localizada numa área nobre do Estado, que abrange as cidades de São Paulo, de Santos e a região do Vale do Paraíba, o potencial de crescimento do mercado é enorme porque a exploração de gás é incipiente no Brasil. Mais de 92% da energia gerada provêm das usinas hidrelétricas e como existem limites financeiros (os investimentos são elevados) e naturais (o potencial hídrico em São Paulo está esgotado), para construí-las
criou-se um forte movimento pelo uso do gás, observou Mônica Carvalho, especialista do setor do banco espanhol Santander.
Embora prefira não dar palpite, ela lembra que na privatização da Companhia Estadual de Gás (CEG), do Rio de Janeiro, o consórcio vencedor pagou quase o dobro do preço mínimo para levar a empresa. "Não me surpreenderia se o mesmo ocorresse na privatização da Comgás, que está numa área de concessão mais atrativa e é uma empresa de bom nível técnico", disse, referindo-se ao baixo nível de perdas da companhia (3%).
O analista do Banco Pactual, Pedro Batista, destaca outro ponto que acirraria a disputa pela Comgás. "Quem não comprar esse ativo agora não vai fazê-lo mais". As empresas interessadas têm negócios no Brasil e, em alguns casos, nos países vizinhos e esta é uma oportunidade de se posicionar no mercado brasileiro.
Por isso, embora os especialistas considerem razoável um ágio de 50%, ninguém se mostraria surpreso com ágios maiores, até porque os grupos que estão no páreo têm bala para bancar os investimentos. Muitos deles esperaram mais de dois anos até a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovar a desestatização da distribuição do gás canalizado no Estado. Um exemplo é a Shell do Brasil , que surge como candidata natural, pois já está com um pé dentro da empresa. No início de 1997, a companhia norte-americana comprou um lote de 19,8% de ações ordinárias, pertencente à prefeitura de São Paulo, que lhe deu direito a um assento no conselho de administração.
Participantes - A Shell, como a companhia petrolífera da Itália Agip, combina negócios nas áreas de gás e petróleo. A empresa italiana, considerada por especialistas do setor outra forte concorrente à Comgás já está presente no Brasil: é dona da Liquigás (distribuidora de gás de botijão e da São Paulo Distribuidora de Petróleo (rede de postos de gasolina).
Outra forte concorrente é a Enron. Gigante internacional do setor de eletricidade e gás, a empresa tem várias parcerias no Brasil na área de gás. Possui 25,5% do capital da Ceg e participa do Gasoduto Brasil-Bolívia. No ano passado adquiriu a Elektro, distribuidora de energia elétrica que atende o interior de São Paulo, justamente na área que corresponde ao trecho do gasoduto no Estado de São Paulo. Por várias vezes a empresa declarou interesse na Comgás e na região do Cone Sul. No mercado especula-se que a Enron deve participar do leilão por meio da Gás Natural, holding que controla a Ceg junto com ouras empresas
entre elas a espanhoa Iberdrola
Grupos com atuação global vêem o negócios de energia de forma integrada, produção e distribuição e nas várias matrizes, eletricidade ou gás. São chamadas de "utilities". Por isso várias outras companhias do setor de energia elétrica manifestaram interesse pela estatal de gás ,como a CMS Brasil Energia e a Light Metropolitana.
Clientes - De acordo com dados do mercado, a expectativa de crescimento é: residencial, 10% ao ano, comercial, 11% ao ano e o industrial, 6%. O maior potencial, no entanto, está no segmento de termoelétricas, mercado que promete crescer 40% ao ano.
A Comgás deverá fornecer gás natural para duas Usinas Termoelétricas, de Piratininga e de Paulínia, que deverão consumir cerca de 5 milhões de metros cúbicos por dia. Mas esperava-se que novos projetos de termoelétricas estivessem em andamento para absorver o gás natural boliviano. E aí concentra-se a grande dúvida dos especialistas quanto ao tempo que a Comgás levará para se expandir nesse segmento de negócio.
O potencial de crescimento do mercado residencial não é nada desprezível. Quase não é atendido pela Comgás, mas poderá crescer ao mesmo tempo que aumentar a disponibilidade de gás e houver capital para investir na construção de estações de recebimento do produto, observam os analistas, destacando que as margens de lucros no segmento residencial são generosas.

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