Governo vai reativar frentes de trabalho
Ontem, em Brasília, o presidente FHC negou que tenha havido negligência no combate aos efeitos da estiagem
Agência Folha
Dida Sampaio/Agência(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)stadoFlageloMoradores de Araripina saqueiam cestas básicas que seriam distribuídas na Zona da Mata de PernambucoO presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que o governo vai reativar as antigas frentes de trabalho nas áreas atingidas pela seca no Nordeste. Ele batizou a ação de ‘‘frentes produtivas’’ e disse que agora elas serão diferentes. FHC passou os 29 minutos iniciais da entrevista coletiva falando sobre a seca do Nordeste. Negou que tenha havido negligência do governo no combate aos efeitos da estiagem e afirmou que ‘‘ninguém vai morrer de fome’’ por causa do flagelo.
Segundo o presidente, as frentes produtivas terão início no dia 1º de junho e atenderiam a até um milhão de pessoas. Para FHC, em secas passadas havia ‘‘um trabalho insano e ingente (enorme) que não construiu muita coisa’’, que era apenas uma ‘‘tentativa de ocupação para alguém que precisa de recurso e tem que ter alguma ocupação’’. Agora, segundo o presidente, as novas frentes produtivas têm como caráter a alfabetização e a qualificação profissional. ‘‘Porque assim as pessoas vão se qualificando para, terminada a seca, terem oportunidades melhores’’, afirmou FHC.
O presidente não afirmou qual o valor dos recursos que serão liberados para as frentes produtivas. Disse apenas que mandou o Tesouro liberar os recursos orçamentários relativos a obras na região atingida pela seca. FHC disse que as frentes produtivas vão ser mantidas com recursos da União, dos estados e dos municípios. Para isso, afirmou, é preciso entrosamento desses três setores. ‘‘Os governadores, os prefeitos, todos têm de organizar os recrutamentos, as listas. Têm de demonstrar que também estão contribuindo.’’ Segundo ele, ‘‘tudo isso se faz em parceria’’. Segundo o presidente, há muitos locais onde aproveitar a mão-de-obra no Nordeste. Ele citou as obras hídricas (barragens e açudes que estão sendo construídos), as de distribuição de energia elétrica, as de irrigação e as de infra-estrutura na área de transporte, como ferrovias e estradas. Disse que cabe ainda aos prefeitos utilizar os recursos repassados com o fundo de valorização do professor para gerar empregos nas localidades.
O presidente afirmou ainda que, apesar das várias obras hídricas, ‘‘não há solução mágica para nenhum lugar do mundo nem para o Nordeste’’. Ele citou a recuperação do rio São Francisco para a navegação como uma das saídas para a região, mas não citou - nem indiretamente - as obras de transposição do rio como solução para a área.
A transposição do São Francisco foi uma das suas promessas de campanha eleitoral. Atualmente estão em licitação os estudos dos impactos ambientais e da viabilidade técnica da obra. O presidente fez restrições àqueles que apontam a irrigação como solução para o Nordeste. ‘‘Irrigação é cara e não é para plantar economia de subsistência. Requer mão-de-obra mais qualificada, não resolve o problema dos mais pobres.’’
FHC disse que desde outubro do ano passado o governo federal estava monitorando os possíveis efeitos do fenômeno El Ni¤o. Ele disse que, ao saber dos problemas que viriam, escreveu para os presidentes da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia alertando-os para as possíveis catástrofes. No caso brasileiro, ele disse que há prejuízos na análise dos dados, pois não se sabe ao certo qual a influência do El Ni¤o sobre o Atlântico. Negando que o governo dele tenha perdido tempo, FHC disse que trabalhou com dados oscilantes.
O presidente disse que a seca está apenas começando e que, por isso, as ações do governo têm de ser continuadas. ‘‘Não se trata da batalha de um dia nem de tirar fotografia num dia. Trata-se de nós nos ajustarmos para políticas continuadas.’’

mockup