Governo vai estudar o jovem brasileiro
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segunda-feira, 05 de maio de 1997
Roldão Arruda, da Agência Estado, de São Paulo 
Arquivo FolhaEsquecidosJá existem no País políticas para a infância e a adolescência, mas não há quase nada no plano oficial para a juventude SÃO PAULO - Hoje, em Brasília, um grupo de estudiosos irá se encontrar, numa sala de reuniões no 11º andar do edifício do BNDES, para discutir um assunto sobre o qual pouco se sabe: a situação da juventude brasileira, na faixa dos 15 aos 24 anos de idade. A reunião foi organizada pela Comissão de População e Desenvolvimento, organismo que assessora o gabinete de Fernando Henrique Cardoso. Há poucas semanas, o governo pediu à comissão que elaborasse um perfil sobre a juventude e sugerisse políticas adequadas para resolver seus principais problemas. Elas terão que englobar a ação de vários ministérios e também as do chamado terceiro setor, das organizações não-governamentais. O prazo para que o estudo chegue ao gabinete da Presidência é o mês de julho.
A origem do pedido foi a constatação de que já existem no País políticas para a infância e a adolescência, mas não há quase nada no plano oficial para a juventude. Não há nenhum ministério, nem mesmo o da saúde, que tenha feito programas específicos para essa faixa etária, diz a demógrafa Elza Berquó, que preside a Comissão. Aparentemente, tanto no Brasil quanto no exterior, as experiências mais renovadoras estão sendo feitas por ONGs, que deverão ter um peso importante no estudo que nos pediram.
Os jovens na faixa dos 15 aos 24 anos representam 20% do total da população brasileira, segundo o censo demográfico de 1991. Em números absolutos, significa um contingente de quase 29 milhões de pessoas. Eles vivem um momento crucial em suas vidas, um ponto de inflexão, diz Elza. Estão deixando de ser adolescentes para se tornarem jovens adultos; começam a se desligar das suas famílias para criar outras; precisam definir-se profissionalmente; estão chegando ao mercado de trabalho; e muitos até deixam seus lugares de origem.
Entre eles, especialmente na população mais pobre, a violência é a principal causa da mortalidade. No ano passado, na cidade de São Paulo, das 3.432 mortes ocorridas entre jovens dos 15 aos 24 anos, 1.824 (53%) foram homicídios. Separando-se apenas os homens, o percentual sobe para 92,3%.
Na classe média, os acidentes de trânsito também se destacam como causa da mortalidade. Em São Paulo, 11,5% das mortes de jovens são decorrentes de acidentes com autos nas ruas da cidade. É preciso uma política de saúde pública para conter essa violência, observa a demógrafa.
Além dos problemas típicos da idade, os jovens vivem um momento de rápidas transformações sociais. As famílias se desagregam com maior facilidade do que no passado. Hoje no País quase 25% dos grupos familiares são chefiados por mulheres. Cresce a gravidez precoce. Com a revolução que a tecnologia está acarretando no mercado de trabalho, os pais já não são o melhor referencial para os filhos.
Ao começar a coletar e cruzar informações estatísticas, de diferentes fontes, a Comissão já constatou que existe uma enorme mobilidade entre os jovens. O censo de 1991 mostrou que 38% não estavam nos locais onde nasceram e que a mobilidade é maior entre mulheres jovens do que entre homens, observa Elza.
Para a demógrafa, a pressão que existe sobre o jovem é que determina a necessidade de uma política global, destinada a ajudá-lo a superar as dificuldades.
Guardadas as proporções, o que o governo brasileiro estuda é um programa com metas semelhantes ao que foi lançado no dia 27 de abril em Filadélfia, nos Estados Unidos, pelo general Colin Powel. Ele quer uma espécie de cruzada nacional para salvar jovens e adolescentes dos riscos causados pela desagregação familiar, ausência de valores morais, drogas, desemprego. A diferença básica é que a cruzada de Powel tem como base de sustentação o trabalho voluntários dos americanos e doações de empresas.


