Governo usa documento do PT para denunciar "golpismo"
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de agosto de 1999
Por Ariosto Teixeira 
Brasília, 23 (AE) - O governo está usando um documento interno do PT para respaldar sua avaliação de que a Marcha dos Cem Mil tem "propósitos golpistas e antidemocráticos". O PT é um dos partidos que organizam o protesto desta quinta-feira em Brasília. Em dez capítulos distribuídos em 13 páginas, o documento redigido pelo PT do Rio Grande do Sul prega "a derrubada do governo", a antecipação das eleições presidenciais de 2002 e a convocação da eleição de uma Assembléia Constituinte. No plano econômico, prevê o confisco do lucro especulativo dos bancos, o cancelamento das privatizações e a expropriação das empresas que demitirem funcionários.
As propostas são justificadas pela necessidade de o partido assumir a vanguarda do radicalismo político, que consideram perdida, neste momento, para o governador de Minas Gerais, Itamar Franco, citado como exemplo de oposição. "É preciso defender que o governo de Minas siga e aprofunde toda e qualquer medida de enfrentamento do governo federal - como foi a moratória - e dar o exemplo aos governos do nosso partido", defende a Corrente Socialista dos trabalhadores (CST), facção radical cuja liderança mais expressiva no Rio Grande do Sul é a deputada estadual Luciana Genro, filha do ex-prefeito Tarso Genro.
Na tese apresentada pelo grupo de Luciana Genro - referindo-se ao manifesto "É o Momento de Retomar as Iniciativas Populares", assinado por lideranças da esquerda - o PT defende o rompimento do acordo com o FMI, a moratória das dívidas interna e externa, a estatização do sistema financeiro, o fim das privatizações e "a anulação das já realizadas e a expropriação das empresas que demitam". O manifesto-referência dessas posições foi assinado, entre outros, pelo coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile, o cientista social Emir Sader, o sindicalista Francisco Vicente, presidente da CUT-RS, o Coordenador Nacional da Central de Movimentos Populares, José Albino de Melo, o advogado e ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh e o ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, da Secretaria Agrária Nacional do PT.
Embora se trate de um documento de caráter municipal, com textos que ainda serão submetidos a debate e votação no Congresso Nacional do PT, programado para outubro, em Belo Horizonte, o governo o adotou como arma política para fundamentar seus argumentos de que a esquerda pôs em curso, com a Marcha dos 100 Mil, um movimento político de natureza golpista e antidemocrática.
"É em Brasília que está o ferrolho e o verdugo, FHC, homem do FMI. É sobre Brasília que é preciso se concentrar", argumenta a tese denominada "Os trabalhadores precisam do PT para derrubar FHC". Assinado pela vereadora Sônia Sarai e os presidentes e coordenadores da Comissão Executiva do PT de Porto Alegre e 16 Zonais do partido, o documento defende a eleição de uma Constituinte que "proceda à reforma agrária, reestatize as empresas privatizadas, confisque os lucros especulativos, destinando-os à produção, e ponha corruptos e corruptores na cadeia, designando um governo com este mandato".
Denominado "Preparando o II Congresso - 1º Caderno de Teses Municipal", o documento chegou na forma de cópias xerox, na sexta-feira, às mãos do ministro Aloysio Nunes Ferreira, secretário-geral da Presidência da República. Os estrategistas do governo observam que as tendências radicais do PT gaúcho se fortaleceram depois da conquista, pela terceira vez, da prefeitura de Porto Alegre e do governo estadual no ano passado. A análise do Planalto é que o PT sulista detém, no momento, o domínio do debate político-estratégico no interior do partido. Além disso, lembram a importância logística e financeira do governo de Olívio Dutra e do influente vice-governador Miguel Rosseto, que entre outros instrumentos dispõem do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul). Os governistas lembram, também, que praticamente toda a direção do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) é formada por militantes da esquerda gaúcha, tendo o economista João Pedro Stédile como líder máximo.
O ministro Aloysio Nunes passou a mencionar trechos das teses petistas em todas as suas entrevistas sobre a Marcha dos 100 mil para demonstrar que o PT "está desbussulado" e que, conforme ele, ficou "sem rumo na prática do vale-tudo da política do contra, desde que isso contribua para desgastar ou derrubar o governo". O ministro acredita, ainda, que o PT "assim se descredencia como um partido que tem pretensão de governar o País" ao organizar um ato cuja única finalidade é entregar ao presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), um abaixo-assinado pedindo a abertura do processo de impeachment contra o presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo o ministro, não existe fundamento político, moral ou administrativo que justifique essa iniciativa.


