Ancara, 28 (AE-AP) - A Turquia ordenou clérigos islâmicos a ler nas orações desta sexta-feira um sermão denunciando a violência, enquanto a polícia descobria mais seis corpos de pessoas que teriam sido mortas por um grupo muçulmano que dispunha de uma câmara de tortura subterrânea, o que chocou a nação.
Os corpos foram encontrados num esconderijo em Istambul usado pelo grupo militantes Hezbollah e fez subir para 38 o número de corpos desenterrados nos últimos dez dias.
Autoridades já detiveram mais de 700 militantes cujas confissões levaram a polícia a desenterrar corpos em porões e jardins em cidades de todo o país. Os corpos tinham as pernas e as mãos amarradas nas costas e alguns traziam sinais de tortura.
Militantes capturados na cidade do sudeste de Batman levaram a polícia nesta sexta-feira a nove esconderijos, onde autoridades encontraram 134 pistolas e 26 fuzis AK-47, disse Isa Parlak, governador de Batman.
Na principal mesquita de Ancara, um líder das orações de sexta-feira leu um sermão aprovado pelo governo denunciando as mortes. Sexta-feira é o dia sagrado de orações no islamismo.
"Terror, violência e anarquia não têm nada a ver com o Islã"
disse um líder de orações na mesquita de Kocatepe. "Nossa religião baniu todo tipo de anarquia, terror, violência, perversidade, tormento e tortura".
O texto, que foi lido por milhares de clérigos em todo o país, era intitulado "Violência não tem lugar no Islã" e citava versos do livro sagrado islâmico, Corão, no qual o profeta islâmico Maomé proíbe crueldade.
Apesar de a Turquia ser amplamente muçulmana, o secularismo é imposto estritamente. O governo aponta todos os clérigos e o conselho de Assuntos Religiosos dita os tópicos a serem pregados nas orações de sexta-feira e ocasionalmente emite o texto dos sermões.
Um fiel na mesquita disse que ficou chocado com os assassinatos cometidos pelos militantes do Hezbollah.
"É uma selvageria", afirmou Suleyman Memisoglu depois de terminadas as orações do meio-dia. "Foi o maior golpe já dado no Islã".
Entre as vítimas do Hezbollah estavam empresários que se recusavam a apoiar o grupo e uma ativista dos direitos humanos que defendia o direito de as mulheres rezarem ao lado dos homens.
O Hezbollah, cujo ideal é a criação de um Estado islâmico no sudeste da Turquia, usavam mesquitas para recrutar militantes na região fortemente habitada por curdos.
Nesta sexta-feira, a polícia prendeu dois imãs na província sulista de Gaziantep suspeitos de terem ligação com o Hezbollah. A polícia descobriu recentemente masmorras na parte de baixo de uma mesquita em Batman onde o militantes do Hezbollah manteriam suas vítimas.
A imprensa turca tem criticado intensamente o governo desde o início da repressão contra o Hezbollah, dizendo que autoridades toleraram o grupo por cerca de uma década, quando militantes do Hezbollah combatiam guerrilheiros marxistas curdos no sudeste. Alguns comentaristas afirmaram que o governo teve participação no treinamento do Hezbollah.
Autoridades e militares negam ter ajudado o grupo, que já matou centenas de guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), mas nunca atacaram policiais ou soldados.
O Hezbollah turco não tem ligações com o grupo guerrilheiro libanês do mesmo nome.

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