Brasília, 08 (AE) - O governo traçou um cenário otimista para a inflação ao longo dos próximos meses, no Boletim de Acompanhamento Macroeconômico, divulgado hoje pelo secretário de Política Econômica, Edward Amadeo. Mesmo admitindo que os índices registrados nas últimas semanas tiveram "fôlego maior do que o esperado" e admitindo a possibilidade de remarcações de curta duração em função das vendas de Natal, o governo aposta na queda dos índices, sobretudo na virada do ano.
"Não há perigo de repique da inflação em dezembro, pois os problemas que tivemos recentemente têm relação com a entressafra agrícola, que foi rigorosa", disse o secretário. Com a normalização das chuvas, os preços de alimentos já começaram a cair, explicou. Na sua avaliação, o ingresso da safra agrícola no início de 2000 poderá até provocar deflação nos índices de preços de produtos agropecuários. Cálculos da Secretaria de Política Econômica (SPE) apontam para a possibilidade de os preços de produtos agropecuários terem deflação de 4% a 6% mensais em janeiro, fevereiro e março de 2000.
O secretário disse que a inflação registrada nas últimas semanas foi um "surto" provocado por diversos fatores cujos efeitos já estão sendo superados. Além da entressafra, pesaram na inflação as tarifas e o impacto da alta do dólar sobre preços
sobretudo de atacado. "Na discussão sobre inflação, ficou clara a diferença entre uma inflação permanente, caracterizada por aumentos generalizados do nível geral de preços decorrente de pressões de demanda e/ou indexação, e uma inflação transitória, resultado de choques negativos de oferta delimitados e que não comportam um movimento que tenda a se perpetuar", analisou.
Cesta básica - É a alta dos preços agrícolas, pressionada pela entressafra rigorosa, que explica o fato de a cesta básica estar mais cara do que um salário mínimo, pela primeira vez desde que o mínimo foi fixado em R$ 136,00. "O salário mínimo costumava comprar em torno de 110% de uma cesta básica, mas agora está praticamente igual", admitiu Amadeo. Ele apresentou gráficos que mostram que o preço da cesta básica sempre cai em torno de junho e sobe no final do ano. "Mas, neste ano, subiu mais do que o de costume", admitiu o secretário.
Amadeo explicou que, com a entrada da safra, a partir de janeiro, o preço da cesta já deverá ter queda. "Isso significa que o poder de compra do salário mínimo vai-se recuperar", comentou. O assessor para assuntos agrícolas da SPE, Evandro Fazendeiro, disse que já há sinais de queda no preço do boi gordo.
Em sua análise sobre a inflação, a SPE destacou, ainda, o peso das tarifas públicas. A gasolina registrou aumento de 62% no ano, enquanto o gás de cozinha subiu entre 38% e 42%. Para 2000, informam os técnicos, os analistas de mercado esperam queda no preço internacional do petróleo - que, aliada à valorização do real ante o dólar, deverá resultar em pressão menor sobre a inflação do ano que vem.
No caso da energia elétrica, o reajuste médio de janeiro a outubro chegou a 17,3%, contra uma inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 7,27%. No ano que vem, segundo a análise dos técnicos, os reajustes deverão ficar 50% menores do que os registrados neste ano. Essa estimativa é embasada no fato de que, em 2000, o indexador das tarifas de energia - o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) - terá taxas decrescentes em comparação com 99. Além disso, é esperada uma queda na cotação do dólar, que reduzirá o custo de operação das companhias elétricas e não será concedido, em 2000, um reajuste autorizado em 99 a título de compensação por dispêndios realizados.

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