Governo terá de estabelecer patamar de referência para câmbio, diz Franco
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terça-feira, 15 de junho de 1999
Por Rita Tavares 
São Paulo, 16 (AE)- O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, acredita que o governo terá de estabelecer um patamar de referência para a política cambial como forma de evitar a excessiva volatilidade. Segundo ele, hoje todos sabem que há uma intervenção moderada no mercado, mas ninguém sabe qual será o limite da atuação do Banco Central num momento de extrema volatilidade. Franco disse não entender "qual é sua lógica" de atuação do Banco Central.
Segundo ele, ao optar por um regime flutuante, o BC optou por surpresas que sempre são exageradas, sejam pela desvalorização ou apreciação da taxa de câmbio. "Acho que vamos continuar sendo um País meio mestiço - entre essas duas formas de regime cambial. Afinal, esse é um País que, ou está em crise ou em euforia. Raras são as vezes, como hoje, que temos um tempo nublado como agora" afirmou.
Caso o Banco Central não estabeleça essa referência, todo o "sacrifício" de implantação do sistema do câmbio flutuante terá sido inválido, de acordo com Franco, e poderia levar ao ponto inicial, o momento anterior à regime de flutuação.
Combinação de âncoras - Gustavo Franco acha necessária a manutenção de mais de uma âncora na política econômica. "Não dá para ter as políticas fiscal, monetária e cambial totalmente desancoradas. Uma âncora só não segura o navio. É preciso uma combinação", afirmou, sem, no entanto, dizer qual seria a saída a ser adotada. Ele reconheceu, porém, que a política monetária passa a ser mais importante do que era até a adoção do sistema de câmbio flutuante, mas disse que "cada um tem a sua receita" sobre o mecanismo a ser utilizado.
Mais uma vez, Franco criticou o governo por não divulgar com clareza como funcionará a política de metas inflacionárias, embora o governo tenha investido muito em pesquisa e pessoal e já ter escolhido o índice a ser adotado. "O Brasil está se encantando com novidades do exterior e descuidando do aprendizado com a história recente do País", disse.
Franco acha que os efeitos de uma alta de juros americanos não é fator de preocupação para o Brasil. Ele prevê uma elevação pequena, que já está sendo sido assimilada pelo mercado americano e não será um transtorno ao mercado brasileiro. "O risco de correção do índice Dow Jones está presente na mente de todos, mas não é algo que o mercado americano acredite. Não vamos nós nos preocupar", disse.
Queda dos juros - Gustavo Franco vê dificuldades para que o BC reduza o atual patamar das taxas de juros. "Está sendo difícil trazer perto dos 20%, o que dizer abaixo disso?" perguntou, discordando da tese de que a redução da inflação trará automaticamente a queda dos juros. Isso porque o piso dos juros tem de considerar fatores internos e externos, já que o Brasil tem uma economia aberta. Assim, os juros pagos pelos C-Bonds seriam um balizador necessário, para o estabelecimento desse piso doméstico, para manter a atratividade do País ao capital internacional.
O ex-presidente do Banco Central também afirmou estar preocupado com a condução das reformas econômicas. Ele disse não entender porque a reforma da Previdência Social foi retirada da agenda de votações prioritárias do governo, sendo substituída pela discussão da reforma tributária, que não ajudará em nada na política de ajuste fiscal.
"O ajuste fiscal continua sendo a prioridade número um do governo" afirmou Franco criticando a "complacência" do governo na condução dos ajustes necessários.
"Sou contra um programa fiscal de três anos, como o estabelecido no acordo com Fundo Monetário Internacional. Disciplina fiscal tem de ser para o resto da vida", completou o ex-presidente do BC ao falar, nesta manhã, durante um seminário em São Paulo que discutiu previdência privada.


