Paris, 2 (AE) - "Previsão de mau tempo" no governo socialista de Lionel Jospin. Seu braço direito, o influente Dominique Strauss-Kahn (Finanças), pede demissão em circunstâncias detestáveis: Strauss-Kahn (D.S.K.) é "colocado em questão" em um escândalo de corrupção. Desastre para um poder que se apresentava, com uma unção um pouco exasperante, como a imagem brilhante da virtude em contraste com a imoralidade atribuída à direita.
A questão é a seguinte: entre 1994 e 1997 (antes, portanto, da volta ao poder de Jospin e de seu amigo Strauss-Kahn), o atual ministro das Finanças recebeu uma soma de 603 mil francos por ter aconselhado, enquanto advogado, uma associação mutual de estudantes muito ligada ao partido socialista. Ora, D.S.K. não teria fornecido um grande trabalho para merecer tal gratificação. E o que é mais grave: a fim de justificar "a posteriori" esses 603 mil francos, D.S.K. e a mutual em questão teriam forjado, em 1998, falsos documentos com datas anteriores. Assim, à corrupção se acrescentaria o uso de falsificação.Gravíssimo.
Nesse processo, era fatal que Strauss-Kahn fosse "incriminado". A partir de então, seu chefe, Lionel Jospin, deveria escolher: seja exigir a demissão de seu ministro; seja, ao contrário, recusar que o poder político se rebaixe diante do poder judiciário.
Jospin, que não gosta da bulimia dos juízes, tendia a manter Strauss-Kahn. Mas percebeu que a situação seria inadministrável. Por quê? Porque Strauss-Kahn, enquanto ministro das Finanças, é no exterior a imagem da França. Então, "como a mulher de César", ele deve estar acima de qualquer suspeita.
D.S.K. apresentou, então, sua demissão, que foi aceita por Jospin. Logo foi substituído por Christian Sauter, que era ministro do Orçamento.
Nem por isso a crise está "sob controle". Uma personalidade dessa envergadura não desaparece sem confusão. De fato, D.S.K. havia conduzido há dois anos uma ação que seus próprios inimigos de direita admirariam. E, no exterior, ele era uma das vozes mais ouvidas entre todos os grandes ministros das Finanças".
E há uma outra coisa: ele garantia o equilíbrio do dispositivo de Jospin: esse governo é socialista e pretende ser "rigoroso", bem longe das "derivas de direita" de Tony Blair ou de Gerhard Schr”der. Bom!
Ainda é preciso governar em um ambiente "liberal", ou seja, sem assustar a indústria, a Bolsa, o capital internacional
a Wall Street e a City, o patronato. Essa era a missão impossível de D.S.K.: tranquilizar os patrões, os proprietários, os industriais, sem por isso trair os ideais desse socialismo íntegro a que se refere Jospin. Strauss-Kahn teve êxito nessa proeza. Governou como um "liberal" ou um mundialista, "privatizou" bem mais do que a direita já havia privatizado, seduziu os patrões, fascinou os "liberais" - como
por exemplo, Raymond Barre - sem por isso ser considerado por seus amigos socialistas um "social-traidor", do gênero Blair ou Schr”der. O número do acrobata D.S.K. foi genial.
Genial e eficaz. Certamente, D.S.K. desfrutou de uma conjuntura favorável (graças aos Estados Unidos), mas soube utilizar os ventos dominantes com uma ciência digna dos "capitães" de um veleiro transatlântico com duas pessoas. Jamais a economia francesa esteve tão bonita de se ver: produção em alta, mercado interno fértil, orçamento com excedentes, comércio externo esplêndido, nada de inflação e redução do desemprego muito rapidamente. D.S.K. tinha o dedo mágico. Assim como tem, por outro lado, charme, graça, pois sua mulher, jornalista de TV, é encantadora (Anne Sinclair), está no auge do sucesso do qual ele cai hoje.
Seu sucessor, Christian Sauter é pouco conhecido. Ele tem uma vantagem: braço direito de Strauss-Kahn, ele é a garantia de que a política liberal-socialista de seu chefe terá continuidade. Eis algo que agrada ao patronato. A prova: a Bolsa não sofreu queda nesta tarde.No entanto, a verdade é que Christian Sauter terá dificuldade para ocupar os grandes espólios de Strauss-Kahn.
Mais dois comentários: o êxito fascinante de Strauss-Kahn garantiu-lhe um grande futuro. Duas poltronas lhe "estenderam os braços": seja o cargo de primeiro-ministro, em 2002, caso Jospin seja presidente da República. Ou a Prefeitura de Paris, em 2001, posição estratégica.Hoje, embora D.S.K. se beneficie de um "não lugar" (como quer Jospin), a ascensão de D.S.K. será mais difícil.
O segundo comentário diz respeito à justiça. Por tradição, a justiça francesa estava à disposição do Executivo. Há uns dez anos, graças tanto à direita quanto à esquerda, os juízes têm a independência recomendada pela teoria da "separação dos poderes".
É uma boa coisa. Mas tudo se passa como se os juízes, exaltados, atribuíssem a si próprios cada vez mais uma espécie de "poder superior". E isso constitui um grave perigo, pois o poder político, já bem enfraquecido no espírito do público, corre o risco de cair completamente sob os ataques brutais dos juízes. A queda brutal do ministro mais influente de Jospin, a zona de turbulência que essa demissão anuncia vão contribuir para exaltar ainda um pouco mais os juízes e seu poder singular.

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