São Paulo, 22 (AE) - Nesta quinta-feira, o governo FHC tem a chance de roubar a cena e capitalizar fatos e expectativas a seu favor, aproveitando a ressaca do feriado de Tiradentes e ofuscando o depoimento do presidente do Banco Marka, Salvatore Cacciola, à Polícia Federal em Brasília. Aliás, o governo pode até zerar o final da semana, se o lançamento dos novos bônus globais do País tiver o sucesso preconizado. Amanhã, o lançamento dos títulos deve estar delineado, porque expira o prazo para que os investidores façam propostas para a troca de títulos da dívida externa (IDU e EI) pela nova emissão. Detalhe que não deve ser subestimado: o anúncio do lançamento de no mínimo US$ 1 bilhão de bônus soberanos pode ser feito no exterior, onde estão o presidente e o diretor de assuntos internacionais do Banco Central e as sedes do Morgan Stanley Dean Witter e Salomon Brothers que conquistaram a lide rança da operação.
Hoje, porém, a agenda que favorece o governo é pautada por três eventos: o seminário promovido em Brasília pelo Banco Mundial, sobre a crise financeira internacional desde o tombo da ásia, e que permitirá ao ministro da Fazenda Pedro Malan sair da toca, por ser destaque na abertura do seminário; o final do prazo para que os investidores interessados em comprar o novo bônus global do Brasil, para pagamento em dinheiro, encaminhem suas propostas ao governo; e a liquidação financeira do leilão de privatização da Comgás pelo consórcio que reúne a Shell e a British Gas.
A Comgás - distribuidora de gás do estados de São Paulo - foi arrematada no leilão de privatização do dia 14 por R$ 1,6 bilhão com ágio de 119,32% sobre o preço mínimo, o que deve garantir ao País ingresso superior a US$ 900 milhões. Esta entrada financeira de divisas, já programada pelo Banco Central, não deve afetar o comportamento da taxa de câmbio porque a expectativa é de que a operação seja fechada diretamente com a autoridade monetária. A colocação dos bônus globais não vai trazer dinheiro novo ao País, mas ajuda a alongar o prazo de vencimento da dívida externa. O novo papel tem prazo de cinco anos para o resgate e os "Bradies" que poderão ser substituídos vencem em prazo médio bem menor.
Esta operação não garante, necessariamente portanto, expansão das reservas internacionais, que seguem flutuando estando, no momento, em baixa acentuada. Na última semana, o Bra sil perdeu US$ 1,170 bilhão de reservas cambiais. O dado divulgado na terça-feira pelo BC confirma saldo de reservas pelo conceito de liquidez internacional de US$ 42,839 bilhões. Este é o pior resultado registrado desde 8 de abril, quando o País recebeu US$ 4,9 bilhões da segunda parcela do pacote financeiro coordenado pelo Banco para Compensações Internacionais (BIS) e Banco do Japão.
Considerando este aporte e mais US$ 4,9 bilhões repassados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), as reservas internacionais brasileiras apresentam acréscimo de US$ 8,976 bilhões no mês. Descontando a segunda tranche do socorro externo
as reservas líquidas estão em US$ 23,739 bilhões. Isto significa que o Brasil perdeu do saldo efetivo das reservas US$ 824 milhões em menos de duas semanas.

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